Molhava o gramado quando lembrou-se
de Rosa. Lembrou-se de seus olhos verdes, de seus cabelos cacheados de um
volume que ela vivia tentando domar. Lembrou-se de seus dedos ágeis ao teclado,
por vezes mais rápidos que o próprio raciocínio alcançava.
Seu nome era Rosa. Mas poderia ser
Maria, Joaquina, Teresa, Flor, ou um nome qualquer dentre tantos nomes de
mulheres que tem jornada dupla, tripla ou até mais.
Rosa era batalhadora, eficiente, bonita.
Tinha marido e filhas. E tinha um trabalho. Não um trabalho qualquer. Não era
um simples emprego. Era sua maior paixão. Rosa amava o trabalho como uma
adolescente que descobre-se apaixonada por seu primeiro amor.
Por vezes vira Rosa sozinha, tarde da
noite, com luzes acesas, papéis espalhados pela mesa, computador ligado naquele
programa azul e preto que tanto força o olhar. Enquanto todos os outros já
cuidavam de suas famílias, de seus lazeres, Rosa batia metas.
As filhas de Rosa clamavam por sua
presença, o marido pedia que olhasse mais por eles, mas ela sempre se saía com
uma desculpa qualquer: “Só mais uns minutos, logo chego aí” E não chegava.
Suas filhas, na infância, custaram
chamá-la de mãe. Rosa viajava a trabalho, passando os cuidados com as filhas
para sua fiel escudeira: Potira. Potira era a mãe. Rosa era visita em casa.
Certo dia, Rosa adoeceu. O médico para
melhor tratá-la, achou por bem interná-la no hospital da cidade. Dentre uma
medicação e outra, Rosa fugiu do hospital. Pretendia voltar a tempo da próxima
injeção. Rosa não foi ver a filha pequena, não foi ver o marido carente. Rosa
foi trabalhar.
Como toda paixão não correspondida um
dia torna-se desilusão, o caso de Rosa um dia rompeu-se.
E Rosa desmoronou...
Esperava que o patrão correspondesse sua
dedicação à altura. Ocorre que o patrão de Rosa a via como é comum aos patrões:
ele não tinha paixão por ela. Tinham um acordo que consistia nela executando as
tarefas que lhe eram atribuídas e, em contrapartida, dava-lhe certa quantia que
equivalia ao seu salário.
Porém o salário não bastava à apaixonada
Rosa. Queria ela proteção, queria ser ouvida, necessitava, sob a perspectiva de
seu olhar iludido, de cuidados, de atenção.
Dizem que o ódio é o sentimento mais
próximo do amor. No dia que o patrão disse não à antes submissa mulher, a
paixão que Rosa nutria pelo trabalho transformou-se em ódio.
Encontrara Rosa outro dia na rua. De
seus olhos outrora atentos e brilhantes chispavam raios de fúria e decepção.
Seu sorriso antes colorido de um baton levemente avermelhado, agora trazia a
cor da estação seca que impera na região: o amarelo. Sua boca proclama em alta
voz em meio aos transeuntes: “Ódio, eu vivo agora de ódio!!!”. Rosa está
doente. Usa o dinheiro que ganhou em anos de trabalho para tratar os males que
o próprio trabalho lhe causou.
Então sentiu-se triste e impotente
perante Rosa. Queria ajudá-la, dizer-lhe palavras que a reconfortasse, mas tudo
o que conseguia era o afastamento. Cada dia mais. Queria que Rosa encontrasse
um novo amor. Agora mais brando, adulto, liberto. Que a fizesse esquecer seus
desencantos. Que tirasse dessa experiência uma bela lição.
Pensou que Rosa poderia ser oradora.
Daquelas palestrantes de auto-estima. Tal qual um condenado que se entrega à
conversão, Rosa deveria espalhar sua história pelo mundo, ensinando as pessoas
que existe vida fora do trabalho, que é preciso aprender a dividir as horas do
dia, os meses do ano, a obrigação e o prazer. Rosa precisa aprender a crescer
entre espinhos, a tornar-se exemplo de resistência e resiliência feminina. Rosa
agora precisa ser mãe. Não só de suas filhas já adultas, mas de todas aquelas
mulheres que abdicam de suas vidas ambiciando mais pela carreira que pela sua
própria família.
* Imagem retirada de "muitomaispaulista.blogspot.com"

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