Por Janete Kozak
Tem coisas que só as
de pernas grossas entendem...
Tentava cumprir mais
uma etapa do projeto “gordinha gostosa”. Consiste em pelo menos
uma hora por dia de exercícios físicos durante a semana. Era dia de
caminhada. Na verdade noite. E ela, a noite, estava mais que perfeita
para a prática: a brisa refrescante animadora. A galera do vôlei
ainda ali por perto socava a bola pelo ar - ufa, estava segura.
Poucas pessoas caminhando por ali – nada de esbarrar em alguém
hoje.
Lá fui eu, confiante.
Camiseta regata, top
apertado pra firmar os seios, tênis confortável nos pés e a
legging, a maravilhosa, poderosona e coringa legging. A amiga de
todas as horas das gordinhas. Como cabe a uma gordinha assumida,
tenho uma de cada cor. Preta, azul marinho, com estampas, sem
estampas, um pouco abaixo dos joelhos, na altura das canelas,
daquelas de encaixar nos calcanhares, das que simulam couro, e por aí
vai.
Lá pela décima
segunda volta – costumam ser catorze, suficiente pra preencher uma
hora de treino – eis que surge ali, bem ali no meio do centro do
interior do fundilho, um crec crec incômodo.
- Aí tem - pensei
logo. E tinha. Em plena etapa final, com o corpo ensopadinho de suor,
eis que que descubro entre as pernas uma fissura. A leaging não
resistiu tamanha gostosura:
Pocou!!
Pocadinha da Silva
Sauro...
Bem ali. Na junção
das quatro partes que compõe uma legging básica. Ah infeliz! Tu não
era companheira?
E agora, como fazer pra
ir pra casa? São vários quarteirões abaixo. Penso num táxi, num
moto-táxi, numa lotação, num coletivo, na possibilidade de uma
alma boa passar por ali e ofertar uma carona. Mas nada, nadica de
nada me aparece naquele momento.
O jeito foi mesmo ir
pra casa a pé.
Tortura maior não há.
Sem “aquela” parte protetora da calça?
As pernas roçam uma na
outra, irritando, se batendo. Tento andar de pernas abertas, ir pra
casa plantando bananeira, pular de uma perna só, tirar a blusa e
colocar entrepernas...
Enfim chego em casa.
Banho rápido, artilharia montada: pomada, talco, espelho, luz forte.
Lá vem ela, a pequena, vendo “seus” apetrechos em minha mão,
lasca logo uma pergunta:- mamãe, sua perereca tá ardida?
- Há se fosse só a
perereca! Tudo está tão assado que daria um belo churrasco.
Atiro-me logo na cama.
Besuntada de pomada contra assadura. E talco. E esperança de dias
melhores...já pensou se o namorado aparece? Como explicar a ele,
magrelo que só, que voltei de uma saidinha noturna com os fundilhos
assados? Dá não. É divórcio antecipado, antes mesmo do casório.
Antes de dormir ainda
arrisco uma oração: - Senhor, permita-me que o amanhã seja melhor
que hoje. Amém.