Umas 15 pessoas aguardavam o médico chegar em frente
ao consultório 05. Eu, que aguardava o oftalmologista, estava sentada nas
cadeiras reservadas ao dito consultório porque não havia nenhum assento vago em
frente à sala onde eu seria atendida.
Não pude deixar de notar o silêncio inquietante que tomava
conta do ambiente. Também pudera! Todos ali tinham um problema qualquer numa
região que não tem boa fama. Quando se quer xingar alguém, o nome do local é
invariavelmente invocado. Eles esperavam o proctologista.
De repente alguém rompe o silêncio. Uma mulher que
estava bem atrás de mim, que vou batizar de Mariana e que aparentava uns vinte
cinco anos, puxou assunto com a sua vizinha, que chamarei de Heloísa.
- Oi. É sua primeira vez aqui?
Heloísa, que devia ter uns 40 anos, lia uma revista
Avon. Ela emitiu um sorrisinho tímido e confirmou que era a primeira vez que
procurava ajuda para o seu problema. Mas não quis detalhar muito o que sentia.
Mariana resolveu quebrar o gelo. Falou que tinha uma
fissura anal e ficou vendo a reação da outra. Oi? Agucei meu ouvido pra ouvir
melhor aquela história. Tava mais interessante que ler a Tribuna do Norte, que
só reproduzia o que todos os sites e emissoras de TV já haviam divulgado no dia
anterior.
Heloísa confessou, bem baixinho, que achava que era
isso que tinha também. Mariana prosseguiu dizendo que já tinha ido a outro
profissional. No caso, uma médica. Disse o quanto foi difícil mostrar, digamos,
seu “tesourinho” para a proctologista.
- É muito mais fácil abrir as pernas para
ginecologista! Agora deitar de ladinho, segurar as nádegas e ainda abri-las
para alguém ver o que você tem de mais sigiloso, íntimo, onde nem o sol bate, é
demais!!
Helô, coitada, enrubesceu. Ficou mais vermelha que
tomate! Pra falar a verdade, acho que eu também. E Mariana não colaborou pra
diminuir o constrangimento da outra. Quer dizer, de nós duas:
- Você veio de calça? Eu já facilitei as coisas. Vim
de saia mesmo. Aí nem preciso tirar nada. É só erguer o vestido, baixar a
calcinha até o joelho e deitar de ladinho. Acho até que já perdi a vergonha. Já
é a terceira vez que mostro!
- Ai, Senhor!! Será que ele vai querer ver assim? De primeira?
Não deu tempo da Mariana responder. Uma grávida que
estava sentada ao lado direito dela, e que achei que tinha cada de Leonora, se
meteu no papo que não estava tão discreto assim.
- E como é que você acha que ele vai saber o que você
tem? Se prepare. Ele vai querer ver, sim.
- Mas eu tô menstruada!, rebateu Helô.
- O sangue pode correr no meio das pernas. Mas ele vai
querer ver mesmo assim. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.
Coitada da Heloísa!! Eu estava vendo que em instantes aquela
criatura fugir dali. Ela estava apavorada! A tal da Mariana quis consertar as
coisas. Disse que todo o constrangimento valeria a pena. Que não tinha preço fazer
o número dois sem sangrar e sem dor. Leonora também tentou amenizar as coisas.
- Mulher, esse médico é uma benção!! Além de ser muito
bom, ele é bem humorado. Olhe, ele é tão brincalhão, que me disse que após
fazer uma cirurgia numa paciente, tirou até uma foto do antes e depois pra
mostrar pra cirurgiada como o dito cujo ficou lindo após o trabalho!
Putz! Era preferível que Leonora tivesse ficado
calada. Se Heloísa não se sentia bem com a ideia do doutor ver seus segredos
mais bem guardados, imagine só lidar com novidade que seu tesourinho poderia
ser fotografado!!
Percebi que Mari ia falar mais alguma coisa, mas seu
nome foi chamado pelo paciente que acabara de passar pela consulta. Foi
inevitável não pensar o que iria acontecer naquela sala. Imaginei a cena,
imaginei o médico pondo o dedo onde não era chamado, imaginei ele fotografando
a zona sul e desejei nunca precisar ir ao consultório 05.
Quando Mariana saiu do consultório chamou o próximo
paciente que, coincidentemente, era Heloísa. Em vez de ir embora ela esperou
Helô na porta e sussurrou algo no ouvido da nova amiga. Fiz leitura labial e
ri:
- Pelo menos o dedo dele é fininho, amiga.
Mariana não olhou pra trás, mas se tivesse feito teria
visto uma Heloísa com cara de quem iria ser abatida num matadouro.