terça-feira, 29 de novembro de 2016

OS PACIENTES DO CONSULTÓRIO 05 E O SILÊNCIO INQUIETANTE

 



Umas 15 pessoas aguardavam o médico chegar em frente ao consultório 05. Eu, que aguardava o oftalmologista, estava sentada nas cadeiras reservadas ao dito consultório porque não havia nenhum assento vago em frente à sala onde eu seria atendida.

Não pude deixar de notar o silêncio inquietante que tomava conta do ambiente. Também pudera! Todos ali tinham um problema qualquer numa região que não tem boa fama. Quando se quer xingar alguém, o nome do local é invariavelmente invocado. Eles esperavam o proctologista.

De repente alguém rompe o silêncio. Uma mulher que estava bem atrás de mim, que vou batizar de Mariana e que aparentava uns vinte cinco anos, puxou assunto com a sua vizinha, que chamarei de Heloísa.

- Oi. É sua primeira vez aqui?

Heloísa, que devia ter uns 40 anos, lia uma revista Avon. Ela emitiu um sorrisinho tímido e confirmou que era a primeira vez que procurava ajuda para o seu problema. Mas não quis detalhar muito o que sentia.

Mariana resolveu quebrar o gelo. Falou que tinha uma fissura anal e ficou vendo a reação da outra. Oi? Agucei meu ouvido pra ouvir melhor aquela história. Tava mais interessante que ler a Tribuna do Norte, que só reproduzia o que todos os sites e emissoras de TV já haviam divulgado no dia anterior.

Heloísa confessou, bem baixinho, que achava que era isso que tinha também. Mariana prosseguiu dizendo que já tinha ido a outro profissional. No caso, uma médica. Disse o quanto foi difícil mostrar, digamos, seu “tesourinho” para a proctologista.

- É muito mais fácil abrir as pernas para ginecologista! Agora deitar de ladinho, segurar as nádegas e ainda abri-las para alguém ver o que você tem de mais sigiloso, íntimo, onde nem o sol bate, é demais!!

Helô, coitada, enrubesceu. Ficou mais vermelha que tomate! Pra falar a verdade, acho que eu também. E Mariana não colaborou pra diminuir o constrangimento da outra. Quer dizer, de nós duas:

- Você veio de calça? Eu já facilitei as coisas. Vim de saia mesmo. Aí nem preciso tirar nada. É só erguer o vestido, baixar a calcinha até o joelho e deitar de ladinho. Acho até que já perdi a vergonha. Já é a terceira vez que mostro!

- Ai, Senhor!! Será que ele vai querer ver assim? De primeira?

Não deu tempo da Mariana responder. Uma grávida que estava sentada ao lado direito dela, e que achei que tinha cada de Leonora, se meteu no papo que não estava tão discreto assim.

- E como é que você acha que ele vai saber o que você tem? Se prepare. Ele vai querer ver, sim.

- Mas eu tô menstruada!, rebateu Helô.

- O sangue pode correr no meio das pernas. Mas ele vai querer ver mesmo assim. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

Coitada da Heloísa!! Eu estava vendo que em instantes aquela criatura fugir dali. Ela estava apavorada! A tal da Mariana quis consertar as coisas. Disse que todo o constrangimento valeria a pena. Que não tinha preço fazer o número dois sem sangrar e sem dor. Leonora também tentou amenizar as coisas.

- Mulher, esse médico é uma benção!! Além de ser muito bom, ele é bem humorado. Olhe, ele é tão brincalhão, que me disse que após fazer uma cirurgia numa paciente, tirou até uma foto do antes e depois pra mostrar pra cirurgiada como o dito cujo ficou lindo após o trabalho!

Putz! Era preferível que Leonora tivesse ficado calada. Se Heloísa não se sentia bem com a ideia do doutor ver seus segredos mais bem guardados, imagine só lidar com novidade que seu tesourinho poderia ser fotografado!!

Percebi que Mari ia falar mais alguma coisa, mas seu nome foi chamado pelo paciente que acabara de passar pela consulta. Foi inevitável não pensar o que iria acontecer naquela sala. Imaginei a cena, imaginei o médico pondo o dedo onde não era chamado, imaginei ele fotografando a zona sul e desejei nunca precisar ir ao consultório 05.

Quando Mariana saiu do consultório chamou o próximo paciente que, coincidentemente, era Heloísa. Em vez de ir embora ela esperou Helô na porta e sussurrou algo no ouvido da nova amiga. Fiz leitura labial e ri:

- Pelo menos o dedo dele é fininho, amiga.


Mariana não olhou pra trás, mas se tivesse feito teria visto uma Heloísa com cara de quem iria ser abatida num matadouro.