Por Josi Gonçalves*
Cinco crianças esperavam em casa ansiosa pela chegada do mais novo membro da família. As quatro meninas e o menino ainda não sabiam mas ganhariam mais uma irmãzinha. Os irmãos de 12, 11, 10, 09 e 07 anos, também não desconfiavam que a chegada do bebê não poderia ser comemorada. No mesmo dia em que Marleide chegaria em casa, eles teriam que velar a morte da mãe. Maria Luíza, uma linda morena de olhos verdes, teve complicações e morreu no parto. Partiu jovem, antes dos 40. Deixou seis filhos para seu Marciano cuidar.
Poucos meses depois ele arrumou uma nova companheira, a dona Amélia. Ela tinha três filhos. As filhas de Luíza ficaram felizes: teriam alguém pra cuidar delas. A alegria durou pouco. Amélia era a maldade em pessoa. Daquelas que só se vê em filme.
Eram obrigados a roubar e a brigar entre si para puro deleite da megera.
- Hoje eu quero ver sangue!!
Dizia ela aos enteados. Os mandava subir em uma mesa e chamava quem passava na rua para ver o espetáculo.
- Mas, dona Amélia, mamãe não criou a gente assim. Nós somos muito unidos.
Pra quê??? A ira da madrasta se revelava. Pegava as crianças pelos cabelos e as jogava contra a parede. Parava. Mas só depois de ver o sangue escorrer. Os levava para o quarto, colocava pó de café na cabeça. Dizia que era para estancar o sangue e os proibia de sair do quarto ou contar algo para o pai.
Às vezes queimava-lhes os braços com ferro quente. Mas a maldade dela ia além.
Marleide era colocada dentro de uma rede bem próxima ao teto. Ninguém podia dar-lhe comida ou água. Antes, porém, o capeta da velha fazia uma mistura de alho, sal e pimenta e introduzia na genitália da pobre coitada. E, no alto da rede, a criança ficava "cozinhando" sob o calor do teto e com dores horrendas em razão da violação precoce e cruel da sua inocência.
Quando a bruxa saía de casa, os irmãos corriam, pegavam um litro de água, colocavam uma mesa embaixo da rede, e uma cadeira sobre a mesa e tentavam saciar, ao menos, a sede da pequenina.
Havia dias em que a megera colocava Marleide sob uma porta, daquelas removíveis. Algumas casas antigas do nordeste ainda possuem portas duplas sobrepostas e independentes, que são retiradas facilmente. Ela pulava sobre a porta. E ria.
Marleide resistiu por oito anos ao sofrimento. Depois Deus a libertou e a levou pra ele.
Mas Amélia ainda tinha cinco crianças para maltratar. Até atingirem a idade adulta, casarem, e saírem de casa, todos eles eram reféns da jararaca.
Seu Marciano fingiu nada ver, nada saber.
Das cinco crianças, quatro ainda estão vivas. Bibi, esse era o apelido do único filho homem de Maria Luíza, se entregou ao alcoolismo e morreu com a mesma idade da mãe. Marluce, Francisca, Luíza e Gercina são sobreviventes.
Três delas estão viúvas. Uma é separada há mais de duas décadas. A mais velha tem 77 anos. Sempre que podem, elas se reúnem na casa da primogênita para tomar café da manhã.
Vez por outra relembram os tempos sofridos da infância e juventude. A caçula, de 73 anos, diz que está escrevendo um livro para contar os detalhes das atrocidades cometidas pela mulher a quem ela me ensinou a chamar de vó.
* Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta.

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