quinta-feira, 16 de julho de 2015

O homem que não sabia amar



Por Wania Evangelista

Ele era pai, casado, avô e tio, mas nunca descobriu o que era o amor. Os gritos, as risadas ou até mesmo a presença da família o irritavam.
O ruído do portão ou o pingo da torneira mal fechada, o abrir e fechar da geladeira, o arrastar dos chinelos, o mexer na panela ou o cheiro do café recém passado... Tudo, tudo, o que para muitos representava os sons da alegria, amor de uma família reunida ao redor da mesa,  nele despertava um sentimento muito mais profundo.
Ah! A danada da IRA, sentimento descontrolado  que se alinhava bem no meio do peito e  explodia.  E como explodia! Não tinha dia, não tinha hora ou lugar. As crianças eram sempre avisadas ao chegar:
 - Não fale, não se mova, não coma, não beba, não grite. Você sabe muito bem como ele é!
Mas a recepção calorosa enganava,  os antes precavidos se esqueciam do perigo, embalados pelo amor e alegria do encontro, não percebiam a chuva pesada que se formava, e de repente, “BUM”, o mal explodia.  Nunca entendi como o sorriso daqueles que mais te amam pode despertar um tsunami de revolta e dor. Como a alegria fácil nas gargalhadas das crianças pode irritar um adulto a ponto de deixá-lo descontrolado. 
- Nunca mais vou voltar! Pensava a filha todas as vezes que o visitava.
- Como  ele é chato! Resmungavam alguns homens da família.
E as crianças? O medo e o constrangimento as faziam tremer.  Mas sempre voltavam.  Como é bom o coração de uma criança...
Assim como  a ira tem o poder de destruição, o amor também  tem um grande poder  de sedução. E o tempo, esse danado do tempo que tudo cura e tudo apaga, sempre engana um coração cheio de saudade.
E a família que sempre suportava a ira calada, não aguentava de saudade e retornava. E o homem que não sabia amar, nunca soube ou percebeu o quão mal fazia.  Nunca notou a lágrima silenciosa que escorria, ou o trauma na auto estima daqueles com quem convivia. Mas se notou também não importava, estava protegido pelo escudo da arrogância e intolerância daqueles que ditam o que é certo e o errado. E para ele o seu “certo” era maior que o sentimento, o coração e o outro. O “certo” lhe dava direito de humilhar, massacrar e magoar. Como deve ser bom ter a confiança da verdade. 
- Não que eu seja ruim, só não gosto de coisa errada.
Como um juiz do bem e do mal, do certo e errado, suas palavras e vontade estavam sempre acima de tudo e todos. Nunca, em todos os seus mais de 60 anos, por um  minuto  sequer, duvidou de suas certezas. E essas verdades foram sempre mais importantes que o convívio, que o amor e que a alegria. 
Como deve ser bom viver toda uma vida com a certeza da verdade, sem culpa, desculpa ou dor. Apenas a verdade. Será que esse homem sabe que pode até  ter conhecido todas  as regras e certezas do mundo, mas que nunca, nunca,  conheceu o que é amor?
 O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor”. Disse o grande sábio um dia.
E ele?  Ele vai morrer sem nunca saber o que é o amor e por isso nunca teve paz. Aquela paz verdadeira que o  homem carrega para onde quer que vá. Paz de espírito para perdoar, compreender e esquecer.  Paz para separar o que vale a pena dizer ou fazer. Paz tão necessária para viver. 

O homem que não sabia amar, não sabia mesmo era  viver.

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