quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

COMO DESCOBRI QUE MEU FILHO É AUTISTA



Por Josi Gonçalves*

Davi nasceu prematuro. Ficou nove dias na UTI. Com 17 dias eu já o levei pra passear no shopping. Não queria criar uma redoma em volta dele e nem um conceito de pobrezinho, coitadinho, frágil demais. Os meses passaram voando. Quando dei por mim, meu bebê, que tinha saído do hospital com 2,4 kg, já estava pesando oito quilos aos seis meses.

Crescia forte, saudável, rosado. O que me incomodava era a demora pra andar, falar. Me queixei ao pediatra que o atendia desde o primeiro mês. Cada criança tem seu ritmo, mãe, dizia ele. E não é que ele tinha razão? Meu pequeno andou com um ano e três meses. Poucos meses antes começou a balbuciar mamã e papá.

Quando vi, ele já tinha dois anos. Ainda esperava ele falar mais articulado, mas ficava feliz em ver que o danadinho tinha verdadeira adoração pelo alfabeto, em inglês e português, e o conhecia de cabo a rabo. Achei tão bonitinho que, apesar dele ter babá, resolvi matriculá-lo numa escola que ficava a uma quadra da minha casa.

A escola tinha câmeras de segurança que permitia aos pais acessar as imagens das salas de aula pelo celular. E eu acessava vez por outra pra matar a saudade, mas uma coisa me intrigava. Ele estava sempre isolado. Não se misturava às outras crianças. Procurei as professoras. Me disseram que era excesso de timidez e que com o tempo ele iria se adaptar.

Em casa era sociável. Mas não chegava a ser receptivo às visitas. Fazia o tipo marrentinho. Inclusive na própria festa de aniversário de dois anos, onde chorou o tempo inteiro na hora de cantar os parabéns. Fora isso, era uma criança amorosa até, embora não conseguisse conversar quase nada comigo.

Impossível não notar o quanto era organizado. O oposto de mim! Saia fechando tudo que era porta aberta: de armário, de guarda roupa, de cômoda.

Com dois anos e meio mudamos de casa e de estado. Na nova cidade matriculei-o numa outra escola. Seu rendimento era bom. Embora eu percebesse que ele não tinha muita habilidade para pintar, contornar, desenhar. Fazia tudo isso com um desinteresse enorme.

Mas antes de ir pra escola já tinha aprendido sozinho, por meio do tablet, o que era triângulo, retângulo, quadrado, em português e inglês.

Durante um ano inteiro só fez um amigo na escola e se recusou a participar de todas as apresentações da turma naquelas tradicionais festas de páscoa, dia do índio e encerramento de ano letivo. Resolvi insistir pra que ele se juntasse aos amigos e à professora e subisse ao palco em uma destas comemorações. Ele deu um show. De choro e grito.

Por falar em birra, Davi não suportava frustração. Qualquer frustração. Por mínima que fosse. - Água gelada? Ele pedia. - Já te dou, deixa só eu terminar de dobrar esse lençol aqui. Isso era suficiente pra que ele se jogasse ao chão em gritos estridentes que, penso, os vizinhos iriam achar que ele estava sendo espancado.

Que gênio forte! Eu concluía desolada que o moleque iria me dar trabalho. E conversava com meu marido como iríamos contornar e resolver aquilo.


No ano seguinte, 2016, na festa de páscoa da escola tentei convencê-lo a se juntar à turminha dele. Tentativa que fui obrigada a abortar. Ele reagiu mal e chorou bastante. Quando a festa terminou procurei a professora. Perguntei: - Sinceramente, você acha que há algo errado com o Davi? Ela deu um suspiro profundo e aliviado. Me disse que fazia uns meses que vinha observando o comportamento dele e que a minha desconfiança tinha sido oportuna.

Fiquei sabendo que ele só sentava na mesma cadeira, que se ela estivesse torta não sentava e que enquanto a professora não dissesse pra ocupar o lugar dele, permanecia em pé no meio da sala. Também soube que tinha dificuldades de lidar com o fato dos coleguinhas mudarem de assento e com a quebra de rotina. A docente ainda me repassou outros detalhes e me disse: acho que seu filho tem Síndrome de Asperger, distúrbio que está incluído dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Confesso que no primeiro momento quis transparecer neutralidade e calma. Mas recebi a notícia como se recebesse uma bomba. Chamei meu esposo, conversei com ele e fomos montar o quebra-cabeça da vida do Davi desde que ele nascera. Quantas evidências e a gente dormindo de touca! Depois do choque a primeira reação foi de culpa. Como não percebemos? Quanto tempo perdemos sem tratamento!

Mas, para me redimir, a memória me trouxe de volta as conversas com o médico: - Mãe, deixe de ser apressada, cada criança tem seu tempo.  E ele era um ótimo médico! E as professoras da escola anterior?  - Mãe, ele é tímido. Só isso.

Me perdoei.

Agora era tempo de correr atrás do prejuízo.  Oito meses depois da conversa com a professora, ainda não consegui laudo público, apenas particular. E o laudo da rede pública de saúde é fundamental para se obter os benefícios legais a que a criança com autismo tem direito. Mesmo aqueles que tem autismo leve, como é o caso do Davi.


Percebi, mais do que nunca, o quanto o sistema de saúde pública é falido e que eu tinha de ter um plano de saúde urgente. Agora ele já faz terapia ocupacional, fonoaudiologia e tem sessões com a psicóloga e consulta com a neuropsiquiatra.

Ainda precisa fazer um exame de cariótipo, com pesquisa de X frágil, para investigar geneticamente as causas do autismo e outras doenças associadas. Mas embora tenha plano de saúde, tenho que pagar pelo exame para ser reembolsada depois.

Davi teve progressos. Já se comunica melhor, está mais aberto ao diálogo, já interage com outras crianças, embora quase não sorri enquanto brinca com elas, e vai aceitando aos poucos a introdução de outros alimentos na dieta, que não sejam biscoitos de água e sal, achocolatado e vitamina de banana.

Há pouco tempo passou a mastigar os alimentos. Antes só os engolia. Mas ainda tem nojo quando alguém come perto dele. Já se permite sujar as mãos com tinta guache, mas tem pavor de uma gota de xixi que pingue no corpo quando vai ao banheiro.

Venho aprendendo, dia após dia, a lidar com ele. Já contorno a maioria de suas “birras” e esses dias tive o prazer de ser surpreendida por uma reação “tomou levou” dele. Ao se recusar a ficar com os primos na piscina da casa do meu irmão, ouviu de uma prima adulta: - Mas, Davi, você não quer tomar banho de piscina com seus amiguinhos? Vai perder mesmo, é? Ele retrucou na lata: - Na minha casa tem banheiros. Assim, no plural.

Outra pessoa talvez pensasse que ele foi mal educado e até grosseiro. Eu comemorei. Isso pra mim se chama progresso. Meu filho hoje tem quatro anos e só quem tem um filho autista em casa, sabe o que é conviver com um anjo na terra. Davi é um serzinho iluminado que sabe o nome de todos os planetas e que o sol é uma estrela. Dialoga com o irmão de 19 anos em inglês, idioma preferido dos dois, e me diz todos os dias, repetidamente, que eu sou muito legal. É um privilégio ser mãe dele. 


Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe do Ângelo, um nerd chato pra burro, e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência. Josi também é filha, da Pauta. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

OS PACIENTES DO CONSULTÓRIO 05 E O SILÊNCIO INQUIETANTE

 



Umas 15 pessoas aguardavam o médico chegar em frente ao consultório 05. Eu, que aguardava o oftalmologista, estava sentada nas cadeiras reservadas ao dito consultório porque não havia nenhum assento vago em frente à sala onde eu seria atendida.

Não pude deixar de notar o silêncio inquietante que tomava conta do ambiente. Também pudera! Todos ali tinham um problema qualquer numa região que não tem boa fama. Quando se quer xingar alguém, o nome do local é invariavelmente invocado. Eles esperavam o proctologista.

De repente alguém rompe o silêncio. Uma mulher que estava bem atrás de mim, que vou batizar de Mariana e que aparentava uns vinte cinco anos, puxou assunto com a sua vizinha, que chamarei de Heloísa.

- Oi. É sua primeira vez aqui?

Heloísa, que devia ter uns 40 anos, lia uma revista Avon. Ela emitiu um sorrisinho tímido e confirmou que era a primeira vez que procurava ajuda para o seu problema. Mas não quis detalhar muito o que sentia.

Mariana resolveu quebrar o gelo. Falou que tinha uma fissura anal e ficou vendo a reação da outra. Oi? Agucei meu ouvido pra ouvir melhor aquela história. Tava mais interessante que ler a Tribuna do Norte, que só reproduzia o que todos os sites e emissoras de TV já haviam divulgado no dia anterior.

Heloísa confessou, bem baixinho, que achava que era isso que tinha também. Mariana prosseguiu dizendo que já tinha ido a outro profissional. No caso, uma médica. Disse o quanto foi difícil mostrar, digamos, seu “tesourinho” para a proctologista.

- É muito mais fácil abrir as pernas para ginecologista! Agora deitar de ladinho, segurar as nádegas e ainda abri-las para alguém ver o que você tem de mais sigiloso, íntimo, onde nem o sol bate, é demais!!

Helô, coitada, enrubesceu. Ficou mais vermelha que tomate! Pra falar a verdade, acho que eu também. E Mariana não colaborou pra diminuir o constrangimento da outra. Quer dizer, de nós duas:

- Você veio de calça? Eu já facilitei as coisas. Vim de saia mesmo. Aí nem preciso tirar nada. É só erguer o vestido, baixar a calcinha até o joelho e deitar de ladinho. Acho até que já perdi a vergonha. Já é a terceira vez que mostro!

- Ai, Senhor!! Será que ele vai querer ver assim? De primeira?

Não deu tempo da Mariana responder. Uma grávida que estava sentada ao lado direito dela, e que achei que tinha cada de Leonora, se meteu no papo que não estava tão discreto assim.

- E como é que você acha que ele vai saber o que você tem? Se prepare. Ele vai querer ver, sim.

- Mas eu tô menstruada!, rebateu Helô.

- O sangue pode correr no meio das pernas. Mas ele vai querer ver mesmo assim. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

Coitada da Heloísa!! Eu estava vendo que em instantes aquela criatura fugir dali. Ela estava apavorada! A tal da Mariana quis consertar as coisas. Disse que todo o constrangimento valeria a pena. Que não tinha preço fazer o número dois sem sangrar e sem dor. Leonora também tentou amenizar as coisas.

- Mulher, esse médico é uma benção!! Além de ser muito bom, ele é bem humorado. Olhe, ele é tão brincalhão, que me disse que após fazer uma cirurgia numa paciente, tirou até uma foto do antes e depois pra mostrar pra cirurgiada como o dito cujo ficou lindo após o trabalho!

Putz! Era preferível que Leonora tivesse ficado calada. Se Heloísa não se sentia bem com a ideia do doutor ver seus segredos mais bem guardados, imagine só lidar com novidade que seu tesourinho poderia ser fotografado!!

Percebi que Mari ia falar mais alguma coisa, mas seu nome foi chamado pelo paciente que acabara de passar pela consulta. Foi inevitável não pensar o que iria acontecer naquela sala. Imaginei a cena, imaginei o médico pondo o dedo onde não era chamado, imaginei ele fotografando a zona sul e desejei nunca precisar ir ao consultório 05.

Quando Mariana saiu do consultório chamou o próximo paciente que, coincidentemente, era Heloísa. Em vez de ir embora ela esperou Helô na porta e sussurrou algo no ouvido da nova amiga. Fiz leitura labial e ri:

- Pelo menos o dedo dele é fininho, amiga.


Mariana não olhou pra trás, mas se tivesse feito teria visto uma Heloísa com cara de quem iria ser abatida num matadouro.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Crônicas de Uma Gordinha Gostosa

Por Janete Kozak

Tem coisas que só as de pernas grossas entendem...
Tentava cumprir mais uma etapa do projeto “gordinha gostosa”. Consiste em pelo menos uma hora por dia de exercícios físicos durante a semana. Era dia de caminhada. Na verdade noite. E ela, a noite, estava mais que perfeita para a prática: a brisa refrescante animadora. A galera do vôlei ainda ali por perto socava a bola pelo ar - ufa, estava segura. Poucas pessoas caminhando por ali – nada de esbarrar em alguém hoje.
Lá fui eu, confiante.
Camiseta regata, top apertado pra firmar os seios, tênis confortável nos pés e a legging, a maravilhosa, poderosona e coringa legging. A amiga de todas as horas das gordinhas. Como cabe a uma gordinha assumida, tenho uma de cada cor. Preta, azul marinho, com estampas, sem estampas, um pouco abaixo dos joelhos, na altura das canelas, daquelas de encaixar nos calcanhares, das que simulam couro, e por aí vai.
Lá pela décima segunda volta – costumam ser catorze, suficiente pra preencher uma hora de treino – eis que surge ali, bem ali no meio do centro do interior do fundilho, um crec crec incômodo.
- Aí tem - pensei logo. E tinha. Em plena etapa final, com o corpo ensopadinho de suor, eis que que descubro entre as pernas uma fissura. A leaging não resistiu tamanha gostosura:
Pocou!!
Pocadinha da Silva Sauro...
Bem ali. Na junção das quatro partes que compõe uma legging básica. Ah infeliz! Tu não era companheira?
E agora, como fazer pra ir pra casa? São vários quarteirões abaixo. Penso num táxi, num moto-táxi, numa lotação, num coletivo, na possibilidade de uma alma boa passar por ali e ofertar uma carona. Mas nada, nadica de nada me aparece naquele momento.
O jeito foi mesmo ir pra casa a pé.
Tortura maior não há. Sem “aquela” parte protetora da calça?
As pernas roçam uma na outra, irritando, se batendo. Tento andar de pernas abertas, ir pra casa plantando bananeira, pular de uma perna só, tirar a blusa e colocar entrepernas...
Enfim chego em casa. Banho rápido, artilharia montada: pomada, talco, espelho, luz forte. Lá vem ela, a pequena, vendo “seus” apetrechos em minha mão, lasca logo uma pergunta:- mamãe, sua perereca tá ardida?
- Há se fosse só a perereca! Tudo está tão assado que daria um belo churrasco.
Atiro-me logo na cama. Besuntada de pomada contra assadura. E talco. E esperança de dias melhores...já pensou se o namorado aparece? Como explicar a ele, magrelo que só, que voltei de uma saidinha noturna com os fundilhos assados? Dá não. É divórcio antecipado, antes mesmo do casório.

Antes de dormir ainda arrisco uma oração: - Senhor, permita-me que o amanhã seja melhor que hoje. Amém.

domingo, 18 de setembro de 2016

Contrários

*Por Ivanete Damasceno 

O mundo é cheio de antíteses. E percebemos isso no cotidiano. Defender o que se acredita é muitas vezes motivo para punição. Acreditar que todos somos seres humanos, e se estamos no mesmo ambiente devemos gozar dos mesmos direitos e deveres ainda é sonho.

A liberdade de expressão e pensamento muitas vezes é cerceada pela censura oculta em sorrisos, elogios, abraços e pedidos carinhosos. Palavras doces somente na hora de impor.

O mundo é cheio de antíteses. E percebemos isso no cotidiano das nossas próprias contradições. Dos nossos desejos e acusações. Para cada sorriso uma lágrima se esconde. Para cada elogio, uma acusação fica oculta. Para cada abraço uma traição é disfarçada.  Para cada pedido carinhoso uma ordem é dada.

Nada é percebido ou nos acostumamos com esse caos?
Esse é o cotidiano cheio de contradições!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

ATÉ QUE A MORTE OS UNA NOVAMENTE




Por Josi Gonçalves *


Ele morreu aos 60 anos. Bebeu cachaça até o fígado não conseguir mais dar conta do recado. Teve cirrose. No velório, parentes que não se viam há séculos se cumprimentavam. Teve até quem tivesse tido o primeiro contato com a família ali, naquele momento. Por sinal, aconteceu um fato curioso: a dor da perda logo foi substituída pela euforia das apresentações e reconhecimentos:

- Maria, tu te lembra de Manezinho Tadeu?

- Claro! Não vá me dizer que é esse homão aqui na minha frente??!!

Maria mal podia acreditar que aquele menininho magricela havia se transformado em um baita quarentão bem apessoado. Passou-lhe até um pensamento meio pecaminoso na cabeça:

- Ai, se eu não tivesse perdido o contato com ele. Talvez até não tivesse casado com Chico.

Em seguida benzeu-se. Credo em cruz! Primo não pode casar com primo.

Lá no outro canto da sala as conversas fervilhavam, enquanto o morto exibia algodão nas narinas.

- Não acredito!! Genésio virou gay?

- Não só virou, como ainda desencaminhou Benedito!

- E tia Nezinha?

- Ficou viúva, tadinha. Como se não bastasse teve um AVC ano passado.

Aqui e ali as conversas giravam céleres. Todo mundo queria se atualizar. Tanta coisa pra contar. Tanta coisa pra saber.

De repente, o padre chega e dá início à cerimônia de despedida de Zé Coelho. O povo se cala. Uma lágrima escorre aqui, alguém soluça acolá. E todos seguem para o cemitério, dessa vez com cara de enterro, onde uma cova de sete palmos recebe o corpo inerte do defunto.

Devagar, todos se vão. Cada um para sua casa. Para sua vida. Irão se encontrar mais algumas vezes. Certamente no enterro de alguns que estiveram ali unidos pela desgraça de Zé Coelho.

É sempre assim. Eles não têm tempo de se encontrar em outra ocasião. Em uma situação festiva talvez... Quem sabe em um aniversário para comemorar o dom da vida? Não. Os negócios não deixam. As ocupações individuais impedem. Definitivamente, eles não têm tempo para encontros familiares.

Até que a morte os una novamente. 

Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd, chato pra burro, chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

A Estupenda Importância da Sinopse

Por Janete Kozak

Férias do trabalho, filha na escola, trabalhos domésticos concluídos pela empregada. Vida de madame. Proponho-me a ler “Complexo de Cinderela” de Colette Dowling. Ainda não sei por que cargas d’águas adquiri a bendita obra. Talvez tenha pensado ser o tal complexo algo do tipo paixão por sapatos de festa (já que Cinderela perdeu o de cristal num baile). A verdade é que não li o prólogo. Nem a sinopse. Nada.
Odiei o livro logo nas primeiras páginas. Mulher idiota a autora! Dizer que milhares de mulheres (um fenômeno) têm o complexo de Cinderela: a necessidade de um homem que seja seu protetor emocional, seu cuidador, alguém que tome as decisões por ela. Que a sustente, que a salve de suas próprias decisões.  Contrastando com a independência feminina, a autora alega que recebia milhares de respostas de mulheres que se identificavam com ela. Mulheres independentes na verdade funcionavam no automático.  
Prestes a arrancar cada página e queimá-las uma a uma, quando procurava por um e-mail, um telefone, um endereço para enviar meus xingamentos à Dowling, resolvi ler a sinopse... logo de cara vejo a informação: a obra fora iniciada em meados da década de 60.
Voltei a ler o livro. Agora com um novo olhar. A cada capítulo penso no complicado mundo das mulheres daquela época.  Viviam num período transitório entre a total dependência do sexo masculino e a luta por direitos iguais, por salários equivalentes, pelo uso do anticoncepcional.
A luta pelo direito da mulher foi travada não só entre mulheres e homens. Ela é travada ainda hoje também entre mulher e mulher. Mas essa luta foi mais intensa àquela época. Penso na batalha interior para optar entre o confortável mas submisso mundo das donas de casa ou trabalhar fora, ter poder de decisão e ficar eternamente sozinha.
Medo da solidão. Medo de não dar conta do recado. Medo de não ter talento suficiente para solidificar-se na profissão. Medo de não ter quem a cuidasse caso ficasse doente. Medo de perder a feminilidade, equiparando-se ao homem.
Ela sempre fora criada para viver à sombra de alguém. Para, como as princesas dos contos de fada, esperar ser resgatada por um príncipe que a levaria pra cuidar do castelo, a encheria de filhos, compraria seus vestidos e a protegeria dos monstros. Esse foi, durante séculos, o conceito de felicidade da mulher.
Conta a história das lutas, das conquistas principalmente as trabalhistas. O que a história não conta é a situação emocional das mulheres que escolheram romper com a tradição milenar da mulher submissa e foram à luta. Será mesmo que foi escolha?
Penso nas mulheres desse século, dessa década. Ainda existe o complexo de Cinderela? Quantas mulheres ele ainda acomete? Como são criadas nossas meninas? Educadas para serem realizadas num casamento? Direcionadas a pensar como homem? Seria melhor se não precisassem decidir sobre suas vidas e de suas famílias? Será que a jornada tripla vale a pena? Estarão os homens dispostos a acompanhar tal evolução?

Penso que a maioria de nós, mulheres ou não, gostaria que suas contas fossem pagas sem a obrigatoriedade do trabalho. Poderíamos trabalhar por mero prazer, independente do salário. Infelizmente escolhemos nossas profissões pelo tamanho da remuneração. Escolhemos a mais rentável, dentro de nossas possibilidades. E o trabalho prazeroso é apenas um robe, muitas vezes congelado, esperando a aposentadoria para trazê-lo à vida, reduzida a poucos profissionais que admitem fazer exatamente o que queriam fazer.
E você, onde se encaixa nessa batalha? 

sábado, 30 de abril de 2016

Ao coração chorão



Agora tudo começa a ficar mais próximo:
O dia da partida
A hora da chegada
A lágrima do olhar
As despedidas
O novo
Recomeçar como? se ainda nem cheguei ao fim?
Ah coração dividido e vagabundo. Não aprendeu  dizer adeus?
Pois eis que finda o tempo do exílio. É hora certa de ir pra casa. Fazer nova casa. 

Cuidar do que é meu. Curtir de pertinho quem inda por aqui está. Amor incondicional, porém atento. Aprende coração, que não tens como perder aquilo que nunca foi seu.
E o que é seu vais levar, sempre, onde quer que vás.

Amor é amor, independe da distância, do tempo e da correspondência. Sim coração egoísta, amor não correspondido é amor também. Embora teimas em gritar aqui dentro querendo retribuição, aprendas de vez: fostes feito de sangue quente e músculos flexíveis. Porque se fostes de pedra já terias sucumbido há muito às marretadas que tanto levas.
Aprende também coração, que por seres feito flexível, o pior sempre está por vir. Ainda tem mais gente pra botar aí dentro. Vá se acostumando. Quem mandou morar em habitação cigana?
Porque levanto acampamento e vou-me. E tu vais comigo. Sangrando sempre. A buscar novos caminhos em terras que não escolhestes.
Aguenta coração!!!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Simplesmente Mariana

É engraçado com a vida vai delineando os traços fortes e apagando os fracos. Lições que não podemos reviver. Incrivelmente, tudo vai ser construindo e nada é perene. Algumas imagens, cenas da nossa vida vão se esvaindo como se nunca tivessem existido.

Numa viagem dentro minhas memórias, eis que encontrei uma amiga que há tempos não via. Uma menina alegre, sorridente, cheia de vida. E sem motivo. Ela é Mariana. Simplesmente Mariana.

Ficamos um tempo conversando. Nem percebi a hora passar. Mas, me dei conta que Mariana não é a mesma. Esse tempo em que ficamos distantes, foram muitos acontecimentos que tiraram o brilho de Mariana. Aquele sorriso fácil, agora é difícil ser visto. Aquela vivacidade parece estar submersa em ceticismo. Fiquei me questionando o porquê dessa abdicação em prol de algo que nem ela mesma sabe o que é. 

Lembro-me que Mariana gostava da vida. Agora ela foge. A alegria está disfarçada no rosto tímido e cheio de marcas de coisas pelas quais passou e somente ela pode dizer. A vida que pretendia, Mariana não teve. Perdeu a inocência e sem nem ao menos saber que era inocente. Desfez-se da vida sem saber.

Muitos anos depois, tenta reencontrar. Mas fantasmas ainda a atormentam e não gosta de falar. Sorri ainda, para mostrar que é inabalável. É forte, mas sobre um terreno arenoso. É sagaz, mas em meio a leões. 

Observando Mariana percebo que ainda pode ser resgatada. Mas precisa ter coragem. Mas o contorno da coragem não tem um traço forte.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Mais do mesmo!

Texto que escrevi em 2010 e que continua atual (pelo menos pra mim que começo o ano sempre cheio de desejos e termino pensando, bem esse ano não deu, mas ano que vem...)

"A gente ri, a gente chora e joga fora o que passou" 

2010
Começo o ano com uma frase célebre do célebre Mário Quintana “Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ANO NOVO é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça". É sempre uma nova chance sempre temos, mas que no reveillon se inflama, de sermos melhores.

A virada de ano é fantástica! São tantos abraços, beijos e votos de felicidades. São tantas pessoas indo e vindo, algumas alegres, outras muito alegres, outras nem tanto; soltos, apaixonados ou desiludidos, todos na mesma frequência. Nos esquecemos dos problemas, das mágoas, das diferenças e partilhamos de uma alegria pueril, despretensiosa. 
Neste 2010 desejo muitas coisas, mas são tantas coisas que se menos de um terço dos meus anseios se tornassem realidade não teria um ano novo, mas sim uma vida nova. Vou explanar alguns das minhas aspirações, ou objetivos, ou simplesmente mais do mesmo de ano novo:
Ser uma pessoa melhor. Sempre quis isso, outrora de um jeito descompromissado, hoje com mais afinco e com um senso de responsabilidade mais aguçado. Quero ter uma mente mais aberta, mais leve, mais justa e ser melhor com isso um coração em igualdade. Quero estudar mais, fazer meu curso de inglês; viajar, viajar, viajar; assistir a final do campeonato carioca no maracanã (acho que não vai dar, mas ainda é uma das minhas maiores vontades pra 2010); ler os livros que comprei e que, atualmente, só estão servindo de adorno à minha estante; aprender sobre leis (e o mais importante, não esquecer); quero brigar menos com as pessoas que amo, ser menos implicante e mais tolerante (em compensação to meio cansada dos problemas dos outros, quero esquentar minha cabeça só com os meus... e isso não é egoísmo, é justiça comigo mesma que a vida toda tive que me sacrificar por alguém); quero meus amigos sempre por perto; quero manter meu peso, engrossar as penas e endurecer a barriga e bumbum (e quem não quer???); deixar meu cabelo crescer.
Quero discernimento pra saber o certo e o errado. Quero fartura; fartura de conhecimento, de amor, de sabedoria, de saúde, de paz, de harmonia e tranquilidade, de dinheiro (muita de preferência) e de pessoas boas perto de mim; não só desejo pra mim como pra todos, um 2010 de muita fartura.
Que nossas esperanças sejam como os anos, aumentam sempre e renascem a cada 1º de janeiro.