sexta-feira, 17 de julho de 2015

O golpe de um bandido chamado “Eduardo Monteiro”





Por Josi Gonçalves*

Sem mais nem menos, recebo uma daquelas mensagens que te prometem um carro, casa, dinheiro, o diabo a quatro... Resolvo ligar para o número. Alguém, de pronto, atende:


- Parabéns, seja bem-vinda à central da VIVO!



Respondo: 



- Para, bicho, sei que é do presídio aí no Ceará. Sou jornalista e liguei pra te dizer que esse golpe de vocês está muito manjado aqui em Rondônia.



Ele me interrompe:



- Que é isso, senhora! Sou CONSULTOR FINANCEIRO DE VALORES!



Me esforçando pra conter o riso, rebato.



- É nada, cara. Só quero uma entrevista. Deixa de tentar me enganar.



- Tá bom (rindo), a senhora está certa. Sou presidiário. Mas a senhora sabe como é, né? A VIDA NÃO ESTÁ FÁCIL PRA NINGUÉM! (Dessa vez não consegui segurar a gargalhada). Já consegui enganar um otário hoje. Tirei dois mil dele. Quase ia conseguindo três, mas ele despertou que era golpe. Mas, a senhora sabe quanto ele tinha na conta dele??? 16 mil reais! Olha, não faço isso porque gosto. É que "a obrigação me obrigou". Tenho que sustentar as crianças. Tenho seis filhos e perdi minha mulher e tô em tempo de perder meus filhos que ficam com um canequinho de café pedindo nas casas, pedindo um pão, pedindo dinheiro e a justiça não olha pra isso. A justiça só olha pro lado de quem tem dinheiro. Meus filhos ficam passando fome lá fora e eu sou obrigado a roubar. 



Pergunto porque ele está preso e há quanto tempo.



- Estou preso pelo 157. Fui condenado a nove anos e sete meses e já cumpri dois anos e dois meses.



- Teu nome?



- Eduardo Monteiro Filho, 42 anos. Olha, eu não roubo porque eu quero. As vezes peço desculpa porque fico muito sentido. Eu me sinto até mal quando eu roubo uma pessoa de bem e ela fica chorando. Meu coração fica muito sentido por causa disso. Às vezes eu não roubo quando a pessoa é doente demais e tem nervosismo. Tem gente que faz isso, mas eu não. Eu sou diferente. Eu digo assim: vá pra casa, descanse um pedacinho tome uma garapinha... Aí eu conto que é trote. É uma coisa que eu me sinto culpado. Eu sou diferente, estou aqui pra me regenerar. Já me regenerei. Deixei de usar drogas, deixei de usar tudo e a justiça não me solta. Tem gente fazendo coisas super graves aí na rua e a justiça não prende e eu tô aqui. Roubo pra dar de comer a eles (filhos). 



Pergunto:



- Qual o maior valor que você conseguiu arrancar de alguém? 



- Ei, eu não sou assim, não. Eu consigo pouco, eu não gosto de tirar ALÉM DA IMAGINAÇÃO!



- Como funciona o golpe?



- É fácil e simples. A senhora está preparada pra pagar uma taxa na casa lotérica e liberar tua premiação? sim ou não? se você for, prepare seu coração, sua emoção. Quando estiver na casa lotérica, você vai me passar a conta, a senhora faz o pagamento e imediatamente a Caixa Econômica Federal deposita sua premiação, ok, minha senhora? a senhora está preparada para ir? Tem uns que dizem: não, peraí que vou tomar um banho primeiro! eu digo: minha senhora isso não é hora de tomar banho, não! É hora de ir tirar a sua premiação na Caixa Econômica. Se a senhora estiver preparada manda uma recarga pra mim e a taxa para liberar a premiação. Prepara o coração e a emoção!! Agora, você como jornalista deve ter algum dinheiro no bolso. Manda 50 reais pra mim, senhora! Eu sou um preso moderno que não faço mal a ninguém! 



- Não faz mal e tira dois mil da conta de uma pessoa?



- Senhora, ele tinha 16 mil na conta! Se fosse outro, tirava todo! Eu não gosto de dinheiro. O dinheiro só traz problema. Já tinha quase dois meses que eu não ganhava nada. Fui obrigado.



- Esse nome que você me passou é seu nome verdadeiro mesmo?



Ele ri da minha cara.



- É o nome de profissão! você quer meu nome verdadeiro, é isso? Se eu der meu nome verdadeiro é problema. No outro dia a senhora vai ver eu pendurado aqui numa corda. Eu sou diretor financeiro da bolsa de valores. Agora, depois desse depoimento, dessas dicas que tô te dando, a senhora tem que fazer uma “promoção” pra mim também. Se eu der uma conta pra senhora depositar aqui pra mim, a senhora vai fazer o quê?



- Tu acha que eu vou contribuir com o crime?



- Então, pronto, coloque uma recarga pra mim aí. A senhora vai colocar, não vai? Ou a senhora acha que eu vou te entregar? Não sou cagueta, não!



Desliguei o telefone pensando qual a diferença entre o bandido da entrevista e os de colarinho branco que todos os dias dilapidam o patrimônio público e as verbas que deveriam ser utilizadas na construção de hospitais, escolas, moradia, segurança pública. Segurança esta que permite a entrada de celulares nos presídios. Porque se este "direito" for "cerceado", policiais e agentes penitenciários são executados aqui fora por não facilitarem a vida da bandidagem. 



Parafraseando o "consultor financeiro da Bolsa de Valores", "a vida não está fácil pra ninguém". Nem pro bandido, que não consegue se regenerar porque não existe uma política de ressocialização implantada nos presídios que são verdadeiros cursos de pós graduação em crimes, nem pro cidadão comum que vive sonhando acordado à espera de dias melhores e cai em golpes absurdos como esse. 


Vida fácil mesmo tem os políticos. Cometem crimes de corrupção, ficam impunes e quando são condenados, ainda recebem uma ajudinha do cidadão brasileiro que, se já não bastasse ter sido subtraído em "tenebrosas transações", tira dinheiro do próprio bolso pra pagar a conta dos bandidos de colarinho branco. Alguém lembra da sacolinha virtual que José Genoíno passou na internet com o fim de arrecadar doações para pagar a multa do julgamento do Mensalão?


Um salve pros "Eduardo Monteiro" do nosso Brasil. O País dos mais espertos!

Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta. 

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