Por Josi Gonçalves*
Há dias me peguei refletindo, remoendo sobre a realidade do jornalismo no país. Vivemos uma desconstrução do ofício, onde profissionais agem como um partido político praticando uma espécie de fisiologismo em uma promíscua relação com o poder. O mercado está repleto de profissionais que sem a menor ideologia ou constrangimento emprestam seu nome para fins, não raro, deploráveis. Esse cenário formou uma nova classe midiática: o jornalismo de aluguel.
Recentemente a morte de Gabo, como Gabriel Garcia Marquez gostava de ser chamado, motivou uma enxurrada de odes ao escritor na mídia. Merecidas, é bem verdade. Gabo só não se retorceu na tumba com tantas palavras jogadas ao vento porque foi cremado. Poucos dos que o homenagearam praticam as lições deixadas pelo escritor e jornalista colombiano que no início da carreira declarou apaixonado que a imprensa era a “melhor profissão do mundo”. Certamente, o ganhador do prêmio Nobel de Literatura enxergava o ofício como missão e não como propulsor de benesses individuais.
A prostituição profissional é um câncer: cresce desordenadamente e espalha-se pelo corpo da categoria, multiplicando a doença da corrupção e falta de ética entre os membros. O resultado desse tumor enraizado no organismo midiático é que sobram poucas células sadias num jornalismo deteriorado, sem escrutínios e transgressor das boas e recomendáveis normas de atuação.
Perde a sociedade que se transforma em plateia ridicularizada no show business protagonizada por uma categoria em choque e em xeque. Perdem também os recém-formados e cheios de sonhos que têm poucas referências boas e saudáveis a lhes nortear os passos. Em breve se tornarão presas das mesmas garras aliciadoras do poder e se sujeitarão ao peleguismo e ao maniqueísmo público e privado, enxergando o viés político-social “através de uma lente que só distingue preto e branco, se conformando com tons de cinza e se tornando insensível às infinitas cores da realidade”.
Se o jornalismo é de aluguel não é de esperar que a qualidade seja alentadora. Quando iniciei meu curso de jornalismo fui pedir estágio em uma emissora de rádio em Vilhena, Rondônia. O diretor geral era tido como grosso, arrogante e inflexível. Fui lá. Tinha apenas duas semanas de curso. Ele me olhou com cara de incredulidade e tascou: “o que faz você pensar que eu vou abrir espaço para alguém que nunca teve experiência em comunicação na vida e que nem sabe o que é jornalismo”? Preparada para a grosseria, respondi: “Sei que tenho potencial pra isso e não me viria aqui me expor de graça. Você não vai se arrepender”. Ele me mandou ir pra casa e disse que entraria em contato em breve.
Dois dias depois me ligou. Foi direto ao ponto: daqui a meia hora quero que esteja na inauguração das novas instalações do SAAE. Você vai entrevistar o diretor da unidade. Ah! “Será ao vivo”! Gelei. Melhor: congelei! Garanti que ia. Mas estava tremendo mais que vara verde. A minha intrepidez havia custado caro, pensei. Liguei para um radialista antigo da cidade e perguntei como se fazia uma entrevista. Ele me deu as dicas e eu parti rumo ao meu desafio. Ensaiei inúmeras vezes, disse para o meu entrevistado que desse um desconto para o meu nervosismo porque era meu ingresso no jornalismo e estreei. Não foi lá essas coisas, mas não fiz feio.
Mal o link havia terminado corri na emissora. Irrompi na sala do diretor geral com aquele arroubo próprio dos focas: “E aí? Como me saí? A vaga de estagiária é minha”? Sem se abalar, ele me respondeu calculadamente: “Foi razoável, razoável. Tenho mais uma missão pra você. Há um ex-prefeito que está preso e não dá entrevistas para ninguém há mais de um ano. Se você conseguir gravar com ele, a vaga é sua”. No dia seguinte, munida de um pequeno gravador, parti para a cadeia. Não só convenci Vitório Abrão a dar 21 minutos e 15 segundos de entrevista como consegui declarações polêmicas dele que alvoroçaram a cidade. Tive muita sorte em gravar com Vitório. Ele é daqueles personagens que fala milagres e santo e dá nome aos bois.
No dia seguinte minha entrevista foi ao ar na íntegra, sem cortes. O resultado disso é que choveu ligações de eminentes figuras públicas na emissora pedindo direito de resposta. Não ganhei a vaga de estágio. O diretor me ofereceu foi um emprego. Dois meses depois já dividia bancada com jornalistas experientes no principal programa da casa. O nome do tal diretor geral da rádio era Normário Leite que neste mês de abril faleceu depois de quase uma década de sofrimento gerado por uma doença degenerativa. Devo muito a ele, que me moldou, me forçou a crescer tendo como base a eficiência e a qualidade e me ensinou as mesmas lições que Gabriel Garcia Marques pregava de que “é a prática que vai nos tornando melhores jornalistas. E a certeza de que somos apenas aprendizes, sempre e socraticamente”.
Essa deve ser a regra do jogo. Sem pactos nem imposições condicionantes, sem moeda de troca e sem os vínculos perniciosos dos corredores obscuros do poder. O resto é lixo.
* Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta.

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