quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Homem das Senhas





Por Josi Gonçalves *

Duas portas giratórias davam acesso ao prédio antigo e feio no centro da cidade. No interior do edifício, centenas de pessoas pareciam correr contra o relógio. Percebia-se nitidamente a pressa nos movimentos dos passos ou na inquietude rítmica dos pés, balançando intermitentes, enquanto aguardavam atendimento nas filas de espera.

Eu sou uma destas pessoas que espera na fileira dos afobados. Também tenho um pé nervosinho que não para de mexer. Finalmente chega minha vez:

- Data de nascimento?

Era o código de acesso aos meus dados cadastrais. Após fornecê-lo:

- Nome completo?

Era a confirmação que eu era eu mesma. Em seguida:

- O que deseja senhora?

- Gostaria de retirar uma segunda via da minha Carteira de Trabalho que foi extraviada. 

A explicação do extravio era desnecessária. Nem a mulher estava interessada em saber da minha vida, nem eu devia satisfações sobre o assunto. Mas como brasileiro adora explicar tudo, como se estivesse se desculpando pelo trabalho que está dando, pronto, eu falei.

- Senhora isto aí só com o Homem das Senhas.

- E onde ele está?

- Tá vendo essas pessoas sentadas ali atrás?

- Ahã

- É ali que ele distribui as senhas. A senhora aguarda lá que daqui a pouco ele deve aparecer. Mais alguma coisa, senhora?

- Sim. Eu gostaria de pagar o imposto do meu carro. 

Vencido, por sinal. Mas essa parte eu ocultei da atendente. Pobre tem vergonha de dever.

- Aqui está a sua senha. A senhora se dirija ao andar de cima.

- Mas, e o Homem das senhas?

- Ah! Fique tranqüila. Dá tempo de a senhora ir lá em cima e voltar e ainda pegar a sua senha.

Eram 11h00 da manhã. Subi apressadamente rumo ao posto de atendimento do Detran. Tive sorte: só tinha um devedor na minha frente. Mas, parece que cantei vitória antes do tempo.

- Ih, senhora! O sistema está fora do ar.

Putz! E agora? Será que vou me desencontrar do Homem das Senhas?! Pensei.

- Ah! O sistema voltou.

Pronto. Eu estava com sorte novamente. Boletos impressos, era hora de descer e enfrentar uma nova fila para pegar senha, de novo, para pagar meus débitos.

Data de nascimento? Nome completo? Todos os procedimentos mais uma vez. Me arrisco a perguntar:

- O Homem das Senhas já apareceu?

- Ainda não, senhora.

- Como o localizo?

- É um senhor de camisa de mangas compridas. A senhora o reconhecerá quando o vir.

Saí da fila para enfrentar outra fila já formando uma imagem na minha cabeça de como seria o Homem das Senhas. No caminho, aproveitei pra dar uma sondada geral no ambiente em busca do tal homem. Nem sinal.

No banco, chega minha vez de ser atendida. 
- Ih, senhora! Não tem em espécie? Nós não trabalhamos com cartão.

Prestem bem atenção no contraditório da coisa: o banco era o que possuo conta, o cartão era o que utilizo no referido banco, mas eles não “trabalhavam com cartão”!!

Respirei bem fundo e perguntei:

- E onde posso pagar essa conta?

- No Banco do Povo, senhora. 

E pra não restar dúvida:

- Preciso de outra senha, né?

Lá volto eu novamente para a fila inicial. Experiente, já chego fornecendo data de nascimento e nome completo. E tasco a pergunta que me corrói o pensamento:

- Moça, e o Homem das Senhas?

Vai por mim, você sempre conquista uma certa simpatia se chama as atendentes de “moça”, mesmo que elas tenham seus “enta e cacetada” (40, 50, 60 e até 80!)

- Nada ainda.

Já se aproximava do meio dia. Corri para o Banco do Povo. Um olho no caixa e outro à procura do Homem das Senhas. De repente, vislumbro um cidadão de porte empertigado, roupas sóbrias (calça marrom, camisa bege, cinto e sapatos marrons), rodeado de gente. Ah! O cabelo! Não posso esquecer o cabelo! Nenhum fio da cabeleira tingida de preto estava fora do lugar. A atendente estava certa: soube na hora que aquele ali era o Homem das Senhas!

Olhei pro relógio. Eram 12h20. Rumei em direção ao solicitado homem. 

- Moço, por gentileza...

Minha teoria sobre o uso do “moço” e “moça” estava furada. Ele me olhou com parcimônia, ergueu a mão com a palma voltada pra minha direção e não falou nada. Voltou sua atenção paras as três mulheres que o estavam interpelando. Eu só o via balançar a cabeça em um gesto negativo. 

Resolvo avançar o sinal mais uma vez. E apelei:

- Senhor, por gentileza, gostaria de obter uma senha para retirar a minha segunda via da Carteira de Trabalho.

E ele com ar arrogante:

- Agora? Eu já distribuí todas as senhas. São só 35 por dia e a pessoa tem que chegar aqui às 07h da manhã. Às 10h eu dou as senhas. 

Até agora estou me perguntando se é por prazer secreto de maldade que ele faz o povo esperar tanto tempo.

- Mas se o senhor distribui as senhas mais cedo, porque hoje só o fez agora, mais de meio dia? 

Perguntei de forma encrenqueira. Também não ia levar desaforo pra casa e nem deixar barato.

-Porque foi o horário que eu tive tempo. 

Tome, povo! Quem mandou ser pobre??

Disse isso e foi embora, arrastando sua empáfia e seu senso de plenitude de poder, junto com algumas senhas que “EU VI” em sua mão esquerda.

Quanto a mim, que não consegui êxito na minha primeira tentativa de retirar o tal documento, estou remoendo sentimentos vis de vingança contra o Homem das Senhas. Já, quanto a você, quando o vir pelos corredores do Shopping Cidadão também saberá de quem eu estou falando. 

E, se precisar dele, tenha paciência. O tal cidadão deve ser um daqueles servidores antigos, que deve ganhar um salário mínimo e que pra valorizá-lo na função, já que não o valorizam na conta bancária, deram-lhe uma tarefa ímpar: o poder de “premiar” 35 pessoas diariamente e castigar umas “trocentas”. Até imagino o discurso que lhe foi dito quando lhe confiaram essa missão:

- “Seu fulano de tal dos anzóis, a partir de hoje o senhor será o Homem das Senhas e, assim como o Governo ferra com a sua vida, o senhor também terá o poder de ferrar com a vida de centenas de descuidados que perdem seus documentos diariamente e vem aqui como “madalenas arrependidas” chorar as pitangas”.

Sendo assim, acho que vou perdoar o abusado. Já ouviu aquela história de “vítimas do sistema”? Pois é, ele e eu estamos no mesmo barco.


Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta. 

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