quarta-feira, 15 de julho de 2015

E são tantos Severinos Iguais em tudo na vida...



Existem fatos que marcam. A madrugada do dia 10 de agosto de 1995 marcou a história do Brasil, mas principalmente muitas vidas, sobretudo a de Maria. Enquanto todos corriam aflitos para não serem atingidos, fugindo, ela corria desesperada para ser encontrada, para ser socorrida... Vanessa, sua filha de apenas sete anos de idade, foi atingida com um tiro nas costas enquanto ainda era parte da multidão, enquanto ela e sua família eram partes dos iguais e corriam para se salvar. Não deu!!! Desde então a menina Vanessa foi transformada no mártir da causa camponesa no triste episódio conhecido como o Massacre de Corumbiara e Maria foi “obrigada” a frequentemente expor sua ferida, aliás, repetidamente era o tempo em que “enfiavam” o dedo em sua ferida. Nunca se recuperou de fato, mas descobriu que a melhor saída para seu “problema” seria o esquecimento e se empenhou para isso. Procurou não se expor, se escondeu, preferiu morrer publicamente a viver uma vida sobre uma morte inocente.

Dizem que os fins justificam os meios... Como aplicar essa frase a realidade de Maria? Como poderia ela entender, ou aceitar, ou mesmo viver com o desfecho do caso Corumbiara, sabendo ela que seu desejo de proporcionar um futuro melhor pra sua filha foi a causa de sua ruína? Quando procurada para saber se conversaria sobre o assunto ela apenas respondeu: “Isso ta enterrado?”. Foi ouvindo essa frase, que saiu com a voz embargada (e pela primeira vez eu “ouvi’ uma lágrima!) que eu percebi claramente que no passado e no presente de Maria há poucas cicatrizes e eternas feridas.

Mas afinal, o que foi o “Massacre”, dezenas de pessoas mortas na madrugada de 10 de agosto? Por acaso esquecimento, descaso, convívio com os problemas de saúde e traumas não seriam formas de continuação do massacre? Maria foi abandonada, esquecida e maltratada. À Maria não foi permitido sentir dor... Todos a tratavam como se a “causa”, que já nem era mais dela e que sequer importava para ela, fosse maior que sua perda. E quando eu falo de Maria alguém ainda poderia se perguntar: Mas afinal, quem é essa tal Maria? A Maria, mãe da Vanessa. O Massacre de Corumbiara não levou apenas sua filha, levou também parte do seu passado e do seu futuro. Ela perdeu sua identidade.  À Maria restou apenas o legado de Mãe da Vanessa, não que isso seja pouco, mas saibam, ser a Maria é extremamente doloroso! 

É... e se são tantos Severinos iguais em tudo e na sina... imaginem só as Maria’s!!!


P.S Texto foi escrito em 2009 e é baseado numa história real (infelizmente). A fazenda Santa Elina foi desapropriada e dividida em 2012 e a  região é conhecida como Assentamento Vanessa.

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