Existem
fatos que marcam. A madrugada do dia 10 de agosto de 1995 marcou a história do
Brasil, mas principalmente muitas vidas, sobretudo a de Maria. Enquanto todos
corriam aflitos para não serem atingidos, fugindo, ela corria desesperada para
ser encontrada, para ser socorrida... Vanessa, sua filha de apenas sete anos de
idade, foi atingida com um tiro nas costas enquanto ainda era parte da
multidão, enquanto ela e sua família eram partes dos iguais e corriam para se
salvar. Não deu!!! Desde então a menina Vanessa foi transformada no mártir da
causa camponesa no triste episódio conhecido como o Massacre de Corumbiara e Maria foi “obrigada” a frequentemente expor
sua ferida, aliás, repetidamente era o tempo em que “enfiavam” o dedo em sua
ferida. Nunca se recuperou de fato, mas descobriu que a melhor saída para seu
“problema” seria o esquecimento e se empenhou para isso. Procurou não se expor,
se escondeu, preferiu morrer publicamente a viver uma vida sobre uma morte
inocente.
Dizem que
os fins justificam os meios... Como aplicar essa frase a realidade de Maria?
Como poderia ela entender, ou aceitar, ou mesmo viver com o desfecho do caso
Corumbiara, sabendo ela que seu desejo de proporcionar um futuro melhor pra sua
filha foi a causa de sua ruína? Quando procurada para saber se conversaria
sobre o assunto ela apenas respondeu: “Isso ta enterrado?”. Foi ouvindo essa
frase, que saiu com a voz embargada (e pela primeira vez eu “ouvi’ uma
lágrima!) que eu percebi claramente que no passado e no presente de Maria há
poucas cicatrizes e eternas feridas.
Mas afinal,
o que foi o “Massacre”, dezenas de pessoas mortas na madrugada de 10 de agosto?
Por acaso esquecimento, descaso, convívio com os problemas de saúde e traumas
não seriam formas de continuação do massacre? Maria foi abandonada, esquecida e
maltratada. À Maria não foi permitido sentir dor... Todos a tratavam como se a
“causa”, que já nem era mais dela e que sequer importava para ela, fosse maior
que sua perda. E quando eu falo de Maria alguém ainda poderia se perguntar: Mas
afinal, quem é essa tal Maria? A Maria, mãe da Vanessa. O Massacre de Corumbiara
não levou apenas sua filha, levou também parte do seu passado e do seu futuro. Ela
perdeu sua identidade. À Maria restou
apenas o legado de Mãe da Vanessa, não que isso seja pouco, mas saibam, ser a
Maria é extremamente doloroso!
É... e se
são tantos Severinos iguais em tudo e na sina... imaginem só as Maria’s!!!
P.S Texto foi escrito em 2009 e é baseado numa história real (infelizmente). A fazenda Santa Elina foi desapropriada e dividida em 2012 e a região é conhecida como Assentamento Vanessa.
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