Por Janete Kozak
Há alguns dias tinha pensamentos
mórbidos e tristes. Sentia-se doente e isso lhe causava crises
semi-depressivas horríveis desde a adolescência. Sentada em frente à TV, ziguezagueava pelos
canais em busca de alguma programação interessante.
Mas a filha pedira para urinar.
Tirara-lhe a roupa de baixo e a mandara ao banheiro para que se virasse
sozinha. Era hora de aprender o básico da higiene pessoal.
E ela demorava a voltar. Chamou-lhe.
De lá ouviu alguns resmungos. Pronto. Estava viva e estava bem. Algum tempo
depois chamou de novo.
De repente a pequena irrompe à porta.
Trazia nas mãos e colados as pernas e braços, meia dúzia de absorventes
íntimos, todos
inutilizados, sujos. A danada havia mais uma vez bisbilhotado a gaveta do banheiro. Mil pensamentos de surra, castigo, repreensão e sermões
passava-lhe pela cabeça. Como podia um serzinho tão pequeno fazer tanta
bagunça?
E brigou com a pequena. Brava.
Firme. Irredutível. E a cara animada da
menina de pouco mais de dois anos fechou-se e deu lugar a um rosto choroso e triste.
“Você brigou comigo”, dizia, aos choramingos.
Então,
numa fração de segundo, lembrou-se do passado, lembrou-se da mãe. De quando também era criança, no
proibido quarto dos pais. Lembrou-se de como era bom descobrir onde ficava a
chave, adentrar aquele misterioso quarto, abrir o armário e sentir o cheirinho
gostoso da naftalina misturado ao perfume da mãe. Coisa melhor no mundo não
tinha. Vestir os vestidos dela, encontrar lá no fundo o mosquiteiro guardado e
fazer dele véu e vestido de noiva. Casara-se tantas vezes ali no quarto dos
pais, vestida das mais ricas túnicas de tule de mosquiteiro. Depois punha tudo
no lugar, dobradinho, pra mãe não perceber a invasão.
E tinha a caixinha de moedas.
Troco da feira que a mãe guardava. Tirava uma moedinha só, pra ela não sentir
falta. Compraria balas na escola. A mãe nunca lhe dava moedas pro lanche. Não
fora educada pra isso. Não podia.
E a gaveta das velas? A misteriosa
e amedrontadora gaveta das velas. Eram escuras, artesanais. Certa vez a mãe
explicara que as herdara da avó e que seriam usadas em caso de morte de alguém na
família. Nunca mais abrira a gaveta das velas. Elas traziam maus agouros.
Olhou para os absorventes na mão
da menina. Não serviam mais mesmo. Iriam para o lixo. Não tinha muito o que
salvar. A garota apenas crescia e cheia de curiosidades, aprendia. Pensou nas
muitas vezes que a mãe não brigara por faltar moedas. Será que ela nunca
percebera? Ou será que apenas não quisera interferir, pra não se desgastar com
a filha? Talvez recordasse ela também de quantas vezes invadira secretamente o
quarto da matriarca.
Era o ciclo da vida, como a
ciência explica: primeiro se nasce, cresce, reproduz e morre. A filha ainda
crescia, mas ela, a mãe, já estava no penúltimo estágio. Só faltava morrer.
Era o melhor a ser feito.
Respirou fundo, puxou a menina para o colo, tomou-lhe os absorventes e os colou
pela cara, barriga e onde mais houvesse espaço. “Você é muito danadinha” falou
para a menina. E brincaram de colagem corporal até que não restasse um só
vestígio de cola nos absorventes. Riso alto, correria, bagunça até cair no sono.
Era a vida que seguia. A filha
apenas fazia o que a mãe já fizera, o que a avó já fizera, a bisavó, a tataravó
e as demais antecessoras. Encheu a si de orgulho e a filha de beijos. Ela
merecia. Era a coisa mais preciosa que já fizera até hoje.



