sexta-feira, 10 de junho de 2016

ATÉ QUE A MORTE OS UNA NOVAMENTE




Por Josi Gonçalves *


Ele morreu aos 60 anos. Bebeu cachaça até o fígado não conseguir mais dar conta do recado. Teve cirrose. No velório, parentes que não se viam há séculos se cumprimentavam. Teve até quem tivesse tido o primeiro contato com a família ali, naquele momento. Por sinal, aconteceu um fato curioso: a dor da perda logo foi substituída pela euforia das apresentações e reconhecimentos:

- Maria, tu te lembra de Manezinho Tadeu?

- Claro! Não vá me dizer que é esse homão aqui na minha frente??!!

Maria mal podia acreditar que aquele menininho magricela havia se transformado em um baita quarentão bem apessoado. Passou-lhe até um pensamento meio pecaminoso na cabeça:

- Ai, se eu não tivesse perdido o contato com ele. Talvez até não tivesse casado com Chico.

Em seguida benzeu-se. Credo em cruz! Primo não pode casar com primo.

Lá no outro canto da sala as conversas fervilhavam, enquanto o morto exibia algodão nas narinas.

- Não acredito!! Genésio virou gay?

- Não só virou, como ainda desencaminhou Benedito!

- E tia Nezinha?

- Ficou viúva, tadinha. Como se não bastasse teve um AVC ano passado.

Aqui e ali as conversas giravam céleres. Todo mundo queria se atualizar. Tanta coisa pra contar. Tanta coisa pra saber.

De repente, o padre chega e dá início à cerimônia de despedida de Zé Coelho. O povo se cala. Uma lágrima escorre aqui, alguém soluça acolá. E todos seguem para o cemitério, dessa vez com cara de enterro, onde uma cova de sete palmos recebe o corpo inerte do defunto.

Devagar, todos se vão. Cada um para sua casa. Para sua vida. Irão se encontrar mais algumas vezes. Certamente no enterro de alguns que estiveram ali unidos pela desgraça de Zé Coelho.

É sempre assim. Eles não têm tempo de se encontrar em outra ocasião. Em uma situação festiva talvez... Quem sabe em um aniversário para comemorar o dom da vida? Não. Os negócios não deixam. As ocupações individuais impedem. Definitivamente, eles não têm tempo para encontros familiares.

Até que a morte os una novamente. 

Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd, chato pra burro, chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta.