Por
Josi Gonçalves *
- Maria, tu te lembra de
Manezinho Tadeu?
- Claro! Não vá me dizer que é esse
homão aqui na minha frente??!!
Maria mal podia acreditar que
aquele menininho magricela havia se transformado em um baita quarentão bem
apessoado. Passou-lhe até um pensamento meio pecaminoso na cabeça:
- Ai, se eu não tivesse perdido o
contato com ele. Talvez até não tivesse casado com Chico.
Em seguida benzeu-se. Credo em
cruz! Primo não pode casar com primo.
Lá no outro canto da sala as
conversas fervilhavam, enquanto o morto exibia algodão nas narinas.
- Não acredito!! Genésio virou
gay?
- Não só virou, como ainda
desencaminhou Benedito!
- E tia Nezinha?
- Ficou viúva, tadinha. Como se não
bastasse teve um AVC ano passado.
Aqui e ali as conversas giravam
céleres. Todo mundo queria se atualizar. Tanta coisa pra contar. Tanta coisa
pra saber.
De repente, o padre chega e dá
início à cerimônia de despedida de Zé Coelho. O povo se cala. Uma lágrima escorre aqui, alguém
soluça acolá. E todos seguem para o cemitério, dessa vez com cara de enterro, onde uma cova de sete palmos recebe
o corpo inerte do defunto.
Devagar, todos se vão. Cada um
para sua casa. Para sua vida. Irão se encontrar mais algumas vezes. Certamente
no enterro de alguns que estiveram ali unidos pela desgraça de Zé Coelho.
É sempre assim. Eles não têm
tempo de se encontrar em outra ocasião. Em uma situação festiva talvez... Quem sabe em um
aniversário para comemorar o dom da vida? Não. Os negócios não deixam. As ocupações
individuais impedem. Definitivamente, eles não têm tempo para encontros familiares.
Até que a morte os una novamente.
* Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd, chato pra burro, chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta.
