segunda-feira, 27 de julho de 2015

O último cheiro de Maria




Por Josi Gonçalves *

Senhora vamos descendo da cama (era uma maca, não era um leito) que tem outro pior que a senhora pra ocupar o seu lugar. 

A frase em tom seco, ríspido e desumano foi dita por uma enfermeira em uma sala improvisada para atender pacientes em risco em uma unidade de saúde qualquer deste país de “todos e de todas”. 

A mulher na maca fria e impessoal era uma senhora de 73 anos que quatro horas atrás estivera entre vida e a morte. 

Resistiu à morte. Ganhou a batalha. Não sem antes ouvir os gritos aturdidos de uma filha que acabara de perder a mãe. Por sinal, a cena em que a mulher passou aos prantos pelos corredores carregando os pertences da mãe, que jazia fria sobre uma mesa do necrotério, jamais seria esquecida por quem a presenciou. 

Minto. A enfermeira que deu a notícia à médica de plantão e a própria médica nem se lembrariam ao final do trabalho que tiveram uma “baixa”. Pra elas, a morte da senhorinha era mais um número. Estatística. Apenas isso. 

Mas a maioria ali vai lembrar do ventilador que a filha carregava nos braços e do lençol que continha o último cheiro de Maria. Nem sei como ela se chamava. Mas seu João, dona Maria e seu Zé, são nomes que se dão a desconhecidos, a quem a gente nunca viu na vida, mas com quem a gente se identifica.

Todos sofremos na pele as intempéries e injustiças desse mundo cão. No final, viramos apenas cheiro, depois só lembranças, até nos unirmos ao solo e virarmos apenas pó. Do pó viestes ao pó voltarás. Ninguém é pra sempre. Nada é pra sempre. Nem dona Maria, nem a filha dela, nem a enfermeira e a médica do hospital.

Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta. 

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