terça-feira, 14 de julho de 2015

Direito à solidão





Por Janete Kozak


Acostumada à vida boa e badalada, da independência financeira  e social, dividida entre trabalho, estudo e diversão, sempre fiz o tipo que “fazia tudo o que queria enquanto solteira porque um dia não poderia mais fazê-lo. Aproveitava a solteirice enquanto a vida permitia. 

- "Só não vou onde meu dinheiro não alcance e só não faço o que não acho correto”, foi minha frase-meta  por alguns anos. Pensava em um dia casar e adotar, como consequência, um estilo mais caseiro. 

A verdade é que não me casei. Ainda. Mas o destino se encarrega de algumas mudanças determinantes em nossa rotina. Não por imposição. Acredito que seja mais uma questão de escolhas.

Escolhi ser mãe. Como em todas as fases, essa também se fez incondicional. De quebra, arranjei um namorado gato, da cor da noite, tranquilo, maravilhoso e… chicletão. 

Dois chicletes na minha vida. Mais que Ploc, mais que Bubaloo, mas que Big Bola: a chicletinha e o chicletão.

Amo de paixão cada um deles. Mas o que mais sinto falta, com certeza, é da minha solidão. 

Uma horinha de solidão, pelo amor de Deus! Imploro eu em meu interior. 

Quem por anos viveu só, dormiu só, acordou só, ter a companhia intermitente de alguém naquelas preciosas horas de ócio, definitivamente não é legal. 

Ócio? Eu disse ócio? Não! Não! Decididamente, não! São momentos riquíssimos, recheados de atividades. Hora de botar as ideias no lugar, organizar tarefas, faxinar a mente. Ë quando se enche a rotina de planos, enquanto se esvazia a geladeira para depositar todas as gorduras e doces em seu estressado ser. 

Contudo meu esforço é demasiadamente inútil, admito. quanto mais tento a clausura, mais colados ficam os chicletes. 

Descobri então que o amor faz doer. Sinto saudades daquela cama que, em seus dois metros, cabia apenas eu. Saudosa ou não, nessa cama agora cabem três.

Resolvo dormir e acordo em frangalhos.

Dois pares de pernas, dois pares de braços me esmagando. Em cada lado. Ora no direito, ora no esquerdo. 

Agora, pois, reivindico aqui meu direito a ficar só. Não por toda a vida, nem pela semana inteira. Reivindico apenas algumas horinhas com a mais rica e  maravilhosa presença: a minha! Afinal, quem ama a própria companhia não teme a solidão. 







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