segunda-feira, 13 de julho de 2015

Por favor, não me salvem!

Por Wania Evangelista

           Virou moda salvar a alma dos outros em qualquer hora e lugar, e isso é chato pra cacete. Acredito que, cristão de verdade, converte pelo exemplo de amor e compaixão. Odeio quando sou abordada e recebo conselhos religiosos grátis.
          Semana passada vivi isso. Tive um problema com o carro - leia-se economia de gasolina - e fui a um compromisso de coletivo intermunicipal. A viagem iria durar cerca de uma  hora, depois de alguns minutos o cobrador do ônibus me reconheceu e veio sentar ao meu lado, era um colega de infância que não via há anos e a conversa começou com aquele papo amarelo de quem não sabe nada da atual vida do outro, mas preserva um carinho pelas historias compartilhadas no passado. Tudo ia bem até que o cara solta:
         -Você tem ido a igreja?
       Como todo gato escaldado dei uma olhada detalhada no sujeito e identifiquei os sinais de perigo, calça social com sapatinho também social, muito bem lustrado, um brilho só. Prevendo uma discussão sobre qual a igreja escolhida por Deus, respondi que minha relação com o criador está íntima que tenho rezado muito em casa e que estou muito bem assim. Depois de pensar um pouco, os olhos dele brilharam e nasceu  um sorriso masoquista no seu rosto. Pescou o meu vacilo e começou uma  longa argumentação de como eu não tinha entendido nada da bíblia, que a palavra certa era orar e que rezar era coisa de macumbeiro adorador do capeta.
      Caralho! Que coisa chata. Dei uma olhadinha em volta e percebi que as conversas tinham cessado. Todos os outros passageiros estavam curiosos. Fiquei automaticamente irritada, odeio quando sou obrigada a fazer algo que não quero e sinceramente não queria começar uma discussão no meio de um ônibus cheio de desconhecidos. O resultado dessa encruzilhada foi que não consegui me preservar e aceitei a briga. No meio da conversa diversas pessoas começaram a opinar. Virou uma bagunça. Mas a mira do cara estava mesmo em mim, era a minha alma pecadora que ele estava determinado a salvar. Continuei ouvindo “verdades”, que além do erro de dizer rezar, estava também vivendo em pecado, afinal, casei apenas no civil e não na igreja.
         Em um determinado momento, quando a discussão\pregação  esquentou, comecei a pensar e reparei no curioso da situação. O tal sujeito que se achava no direito de me julgar tinha um passado problemático. No período da nossa adolescência, enquanto eu era membro do grupo de coroinhas e nem uma cerveja bebia, ele era membro de uma gangue, aterrorizava a região e se entupia de drogas. Depois, enquanto eu estava  me matando de estudar e trabalhar na época da faculdade, ele estava “pagando cana” em um presídio estadual, e agora ali, no meio daquele monte de gente, a pecadora e desviada era eu. Como pode isso?
        Não duvido do poder de conversão e mudança do cristianismo. Como cristã acredito firmemente na ressocialização através da fé. Mas não aceito essa autorização divina que alguns convertidos acreditam ter para invadir, assediar e julgar os outros. Acredito que o verdadeiro convertido, aquele que viveu no pecado, na violência, na prostituição ou no crime, mais do que qualquer outro, ao sair dessa vida e aceitar Cristo é aquele que mais deve dar exemplo de respeito, compaixão e compreensão com as escolhas e o tempo do outro. Assim como a igreja católica, cometeu atrocidades terríveis ao evangelizar os índios, por exemplo, alguns fanáticos estão fazendo algo muito parecido hoje. Famílias estão sendo destruídas, amizades corroídas, inimigos criados, no lugar do amor estamos disseminando o ódio.  Infelizmente não dá mais para fingir que isso não está acontecendo. O mais perigoso é que o nosso Estado, poder maior da nação, que nunca foi tão laico assim, está cada dia mais distante da liberdade que almejamos. Os papéis do estado e da religião estão se misturando e se confundido em tudo, até na educação, na legislação ou na opção sexual de cada um.

      Continuo rezando diariamente, nunca vi relato de alguém que foi convertido em um banco de ônibus, eu definitivamente não seria a primeira. Só que agora, incluí em minhas orações um pedido para que o estado continue sendo estado e a igreja continue realizando seu papel. Historicamente já está mais do que provado, quando as duas coisas se juntam, a barbárie e a intolerância imperam. Que o nosso bom Deus nos projeta da nossa própria fé. 

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