A cidade anoiteceu , amanheceu e anoiteceu de novo cheirando
à morte.
Eram muitos, mas somente quatro se foram: Os filhos de
Madalena.
Os sentimentos se misturam num mix de curiosidade, abalo,
surpresa e pena...
Sinto muito, Madalena. Sinto por seus filhos mortos, levados
pela água tão refrescante, que logo se fez traiçoeira.
Sinto muito pelos anos que não os terá. Sinto muito por cada
aniversário que lembrarás, por cada Natal que lamentarás não ter seus filhos à
mesa.
Sinto pelos diplomas que esperavas, pelos netos que
sonhavas, pelas noites que desde já te preparavas para os puxões de orelha pelo
adiantado da hora que eles chegariam dos encontros com os amigos, com os
amores.
Sinto muito por suas lágrimas, pelo seu desespero. Acredite
Madalena, tantos outros também o sentem. Impossível não se abalar. Sua dor é
coletiva, é contagiosa, é comovente. Sua dor é espelhada no olhar de cada mãe,
de cada pai que se vê desesperado apenas na iminência de um dia obrigar-se a
estar nesse lugar que hoje é seu
E sinto muito mais. Sinto pela impotência de nada poder
fazer, além de sentir muito. Abraços, companhia, orações, nada disso tirará sua
dor que também é minha, é nossa. Queríamos amenizar essa dor, mesmo que pra isso tivéssemos
que lhe emprestar nossos filhos ou apagar de suas lembranças os momentos de angústia à beira daquele rio.
Inconsolável Madalena, acredite: Deus ainda te dará muitas
alegrias, pra compensar tanta dor. Mas terás que aprender a senti-las uma a
uma. O choro dura uma noite, uma temporada ou uma vida toda. É preciso
sabedoria para conseguir sentir a alegria que vem com o amanhecer

Precisamos considerar que, embora a mãe que perdeu seus 3 filhos se chame Madalena, não podemos omitir a mãe que perdeu uma única filha e desconsiderar sua dor. Lamentamos pelas 4 perdas e pelo sofrimento das duas mães.
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