Era Dia das Mães. A filha lhe deu uma toalha de banho de presente. Daquelas bem gigantes que dão pra enxugar a família inteira. A garota, de 15 anos, a viu numa loja e a achou a cara da mãe: alegre, colorida, aconchegante. Decidiu comprá-la. Era a primeira vez que recebia um salário. Trabalhava numa loja como vendedora.
A mãe ficou feliz com o mimo. Era o primeiro presente que ganhava da filha.
Meio sem jeito, a filha entrega o pacote pra mãe e diz:
- Espero que a senhora goste.
Não rola abraço, beijo e coisa e tals.
A mãe rasga o pacote, abre um sorriso de canto a canto, mas… Ela queria mais. Pediu um beijo. A filha não deu. E a mulher chorou copiosamente.
- Mãe, a senhora não pode me cobrar o que nunca me deu.
Fez-se um silêncio sepulcral. Acho que a mulher parou pra pensar no que acabara de ouvir e olhou com pesar para a filha.
A verdade dói.
Ela nunca mais pediu um beijo para a filha que 27 anos anos depois ainda lembra daquele fatídico dia.
Percebe que seria mesmo muito difícil aquela mulher, que teve uma vida tão dura e difícil, beijar e acarinhar os filhos.
Lembra da paciência dela em fazer cachos nos seus cabelos depois do banho. Associa aquilo ao amor entalado na garganta e preso no peito durante décadas.
A filha dá graças a Deus por conseguir externar seu amor pelos dois filhos, abraçá-los, dizer exaustivamente que os ama.
Mas porque, diacho, será tão difícil, vendo a mãe, agora com os cabelos branquinhos, dormindo ali tão indefesa, tão doce, tão cansada, abraçá-la, sem gesso nas atitudes, e dizer:
Amor, I love You?
* Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta.

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