quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Amor, I Love You




Por Josi Gonçalves*

Era Dia das Mães. A filha lhe deu uma toalha de banho de presente. Daquelas bem gigantes que dão pra enxugar a família inteira. A garota, de 15 anos, a viu numa loja e a achou a cara da mãe: alegre, colorida, aconchegante. Decidiu comprá-la. Era a primeira vez que recebia um salário. Trabalhava numa loja como vendedora. 

A mãe ficou feliz com o mimo. Era o primeiro presente que ganhava da filha. 

Meio sem jeito, a filha entrega o pacote pra mãe e diz: 

  • Espero que a senhora goste.

Não rola abraço, beijo e coisa e tals. 

A mãe rasga o pacote,  abre um sorriso de canto a canto, mas… Ela queria mais. Pediu um beijo. A filha não deu. E a mulher chorou copiosamente. 

A filha, sentindo um misto de culpa e constrangimento tascou, na bucha: 

  • Mãe, a senhora não pode me cobrar o que nunca me deu. 

Fez-se um silêncio sepulcral. Acho que  a mulher parou pra pensar no que acabara de ouvir e olhou com pesar para a filha.

A verdade dói.

Ela nunca mais pediu um beijo para a filha que 27 anos anos depois ainda lembra daquele fatídico dia. 

Ainda hoje quando vê sua mãezinha dormindo pensa na vida difícil que ela teve: na perda precoce da mãe, no sofrimento imposto pela madrastra, na falta de amor suportada ao limite da sanidade. 

Percebe que seria mesmo muito difícil aquela mulher, que teve uma vida tão dura e difícil, beijar e acarinhar os filhos.

Lembra da paciência dela em fazer cachos nos seus cabelos depois do banho. Associa aquilo ao amor entalado na garganta e preso no peito durante décadas.

A filha dá graças a Deus por conseguir externar seu amor pelos dois filhos, abraçá-los, dizer exaustivamente que os ama. 

Mas porque, diacho, será tão difícil, vendo a mãe, agora com os cabelos branquinhos, dormindo ali tão indefesa, tão doce, tão cansada, abraçá-la, sem gesso nas atitudes, e dizer:


Amor, I love You?

Josi Gonçalves é jornalista, casada com Francisco Costa, também jornalista (e dos bons), mãe de um nerd chato pra burro chamado Ângelo e do pequeno Davi - que veio ao mundo para a mãe exercitar a arte da paciência - e Filha da Pauta. 

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