quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Crônicas de Uma Gordinha Gostosa

Por Janete Kozak

Tem coisas que só as de pernas grossas entendem...
Tentava cumprir mais uma etapa do projeto “gordinha gostosa”. Consiste em pelo menos uma hora por dia de exercícios físicos durante a semana. Era dia de caminhada. Na verdade noite. E ela, a noite, estava mais que perfeita para a prática: a brisa refrescante animadora. A galera do vôlei ainda ali por perto socava a bola pelo ar - ufa, estava segura. Poucas pessoas caminhando por ali – nada de esbarrar em alguém hoje.
Lá fui eu, confiante.
Camiseta regata, top apertado pra firmar os seios, tênis confortável nos pés e a legging, a maravilhosa, poderosona e coringa legging. A amiga de todas as horas das gordinhas. Como cabe a uma gordinha assumida, tenho uma de cada cor. Preta, azul marinho, com estampas, sem estampas, um pouco abaixo dos joelhos, na altura das canelas, daquelas de encaixar nos calcanhares, das que simulam couro, e por aí vai.
Lá pela décima segunda volta – costumam ser catorze, suficiente pra preencher uma hora de treino – eis que surge ali, bem ali no meio do centro do interior do fundilho, um crec crec incômodo.
- Aí tem - pensei logo. E tinha. Em plena etapa final, com o corpo ensopadinho de suor, eis que que descubro entre as pernas uma fissura. A leaging não resistiu tamanha gostosura:
Pocou!!
Pocadinha da Silva Sauro...
Bem ali. Na junção das quatro partes que compõe uma legging básica. Ah infeliz! Tu não era companheira?
E agora, como fazer pra ir pra casa? São vários quarteirões abaixo. Penso num táxi, num moto-táxi, numa lotação, num coletivo, na possibilidade de uma alma boa passar por ali e ofertar uma carona. Mas nada, nadica de nada me aparece naquele momento.
O jeito foi mesmo ir pra casa a pé.
Tortura maior não há. Sem “aquela” parte protetora da calça?
As pernas roçam uma na outra, irritando, se batendo. Tento andar de pernas abertas, ir pra casa plantando bananeira, pular de uma perna só, tirar a blusa e colocar entrepernas...
Enfim chego em casa. Banho rápido, artilharia montada: pomada, talco, espelho, luz forte. Lá vem ela, a pequena, vendo “seus” apetrechos em minha mão, lasca logo uma pergunta:- mamãe, sua perereca tá ardida?
- Há se fosse só a perereca! Tudo está tão assado que daria um belo churrasco.
Atiro-me logo na cama. Besuntada de pomada contra assadura. E talco. E esperança de dias melhores...já pensou se o namorado aparece? Como explicar a ele, magrelo que só, que voltei de uma saidinha noturna com os fundilhos assados? Dá não. É divórcio antecipado, antes mesmo do casório.

Antes de dormir ainda arrisco uma oração: - Senhor, permita-me que o amanhã seja melhor que hoje. Amém.

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