Por Janete Kozak
Férias do
trabalho, filha na escola, trabalhos domésticos concluídos pela empregada. Vida
de madame. Proponho-me a ler “Complexo de Cinderela” de Colette Dowling. Ainda
não sei por que cargas d’águas adquiri a bendita obra. Talvez tenha pensado ser
o tal complexo algo do tipo paixão por sapatos de festa (já que Cinderela
perdeu o de cristal num baile). A verdade é que não li o prólogo. Nem a
sinopse. Nada.
Odiei o
livro logo nas primeiras páginas. Mulher idiota a autora! Dizer que milhares de
mulheres (um fenômeno) têm o complexo de Cinderela: a necessidade de um homem
que seja seu protetor emocional, seu cuidador, alguém que tome as decisões por
ela. Que a sustente, que a salve de suas próprias decisões. Contrastando com a independência feminina, a
autora alega que recebia milhares de respostas de mulheres que se identificavam
com ela. Mulheres independentes na verdade funcionavam no automático.
Prestes a
arrancar cada página e queimá-las uma a uma, quando procurava por um e-mail, um
telefone, um endereço para enviar meus xingamentos à Dowling, resolvi ler a
sinopse... logo de cara vejo a informação: a obra fora iniciada em meados da
década de 60.
Voltei a ler
o livro. Agora com um novo olhar. A cada capítulo penso no complicado mundo das
mulheres daquela época. Viviam num
período transitório entre a total dependência do sexo masculino e a luta por
direitos iguais, por salários equivalentes, pelo uso do anticoncepcional.
A luta pelo
direito da mulher foi travada não só entre mulheres e homens. Ela é travada
ainda hoje também entre mulher e mulher. Mas essa luta foi mais intensa àquela
época. Penso na batalha interior para optar entre o confortável mas submisso
mundo das donas de casa ou trabalhar fora, ter poder de decisão e ficar
eternamente sozinha.
Medo da
solidão. Medo de não dar conta do recado. Medo de não ter talento suficiente
para solidificar-se na profissão. Medo de não ter quem a cuidasse caso ficasse
doente. Medo de perder a feminilidade, equiparando-se ao homem.
Ela sempre
fora criada para viver à sombra de alguém. Para, como as princesas dos contos
de fada, esperar ser resgatada por um príncipe que a levaria pra cuidar do
castelo, a encheria de filhos, compraria seus vestidos e a protegeria dos monstros.
Esse foi, durante séculos, o conceito de felicidade da mulher.
Conta a história
das lutas, das conquistas principalmente as trabalhistas. O que a história não
conta é a situação emocional das mulheres que escolheram romper com a tradição
milenar da mulher submissa e foram à luta. Será mesmo que foi escolha?
Penso nas
mulheres desse século, dessa década. Ainda existe o complexo de Cinderela?
Quantas mulheres ele ainda acomete? Como são criadas nossas meninas? Educadas para
serem realizadas num casamento? Direcionadas a pensar como homem? Seria melhor
se não precisassem decidir sobre suas vidas e de suas famílias? Será que a
jornada tripla vale a pena? Estarão os homens dispostos a acompanhar tal evolução?
Penso que a maioria de nós, mulheres ou não, gostaria que suas contas fossem pagas sem a obrigatoriedade do trabalho. Poderíamos trabalhar por mero prazer, independente do salário. Infelizmente escolhemos nossas profissões pelo tamanho da remuneração. Escolhemos a mais rentável, dentro de nossas possibilidades. E o trabalho prazeroso é apenas um robe, muitas vezes congelado, esperando a aposentadoria para trazê-lo à vida, reduzida a poucos profissionais que admitem fazer exatamente o que queriam fazer.
E você, onde
se encaixa nessa batalha?
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