quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Gaveta Proibida


Por Janete Kozak

Há alguns dias tinha pensamentos mórbidos e tristes. Sentia-se doente e isso lhe causava  crises  semi-depressivas horríveis desde a adolescência.  Sentada em frente à TV, ziguezagueava pelos canais em busca de alguma programação interessante.
Mas a filha pedira para urinar. Tirara-lhe a roupa de baixo e a mandara ao banheiro para que se virasse sozinha. Era hora de aprender o básico da higiene pessoal.
E ela demorava a voltar. Chamou-lhe. De lá ouviu alguns resmungos. Pronto. Estava viva e estava bem. Algum tempo depois chamou de novo.
De repente a pequena irrompe à porta. Trazia nas mãos e colados as pernas e braços, meia dúzia de absorventes íntimos, todos inutilizados, sujos. A danada havia mais uma vez bisbilhotado a gaveta do banheiro. Mil pensamentos de surra, castigo, repreensão e sermões passava-lhe pela cabeça. Como podia um serzinho tão pequeno fazer tanta bagunça?
E brigou com a pequena. Brava. Firme. Irredutível. E a cara  animada da menina de pouco mais de dois anos fechou-se e deu lugar a um rosto choroso e triste. “Você brigou comigo”, dizia, aos choramingos.
                Então, numa fração de segundo, lembrou-se do passado, lembrou-se da mãe. De quando também era criança, no proibido quarto dos pais. Lembrou-se de como era bom descobrir onde ficava a chave, adentrar aquele misterioso quarto, abrir o armário e sentir o cheirinho gostoso da naftalina misturado ao perfume da mãe. Coisa melhor no mundo não tinha. Vestir os vestidos dela, encontrar lá no fundo o mosquiteiro guardado e fazer dele véu e vestido de noiva. Casara-se tantas vezes ali no quarto dos pais, vestida das mais ricas túnicas de tule de mosquiteiro. Depois punha tudo no lugar, dobradinho, pra mãe não perceber a invasão.
E tinha a caixinha de moedas. Troco da feira que a mãe guardava. Tirava uma moedinha só, pra ela não sentir falta. Compraria balas na escola. A mãe nunca lhe dava moedas pro lanche. Não fora educada pra isso. Não podia.
E a gaveta das velas? A misteriosa e amedrontadora gaveta das velas. Eram escuras, artesanais. Certa vez a mãe explicara que as herdara da avó e que seriam usadas em caso de morte de alguém na família. Nunca mais abrira a gaveta das velas. Elas traziam maus agouros.
Olhou para os absorventes na mão da menina. Não serviam mais mesmo. Iriam para o lixo. Não tinha muito o que salvar. A garota apenas crescia e cheia de curiosidades, aprendia. Pensou nas muitas vezes que a mãe não brigara por faltar moedas. Será que ela nunca percebera? Ou será que apenas não quisera interferir, pra não se desgastar com a filha? Talvez recordasse ela também de quantas vezes invadira secretamente o quarto da matriarca.
Era o ciclo da vida, como a ciência explica: primeiro se nasce, cresce, reproduz e morre. A filha ainda crescia, mas ela, a mãe, já estava no penúltimo estágio. Só faltava morrer.
Era o melhor a ser feito. Respirou fundo, puxou a menina para o colo, tomou-lhe os absorventes e os colou pela cara, barriga e onde mais houvesse espaço. “Você é muito danadinha” falou para a menina. E brincaram de colagem corporal até que não restasse um só vestígio de cola nos absorventes. Riso alto, correria, bagunça até cair no sono.
Era a vida que seguia. A filha apenas fazia o que a mãe já fizera, o que a avó já fizera, a bisavó, a tataravó e as demais antecessoras. Encheu a si de orgulho e a filha de beijos. Ela merecia. Era a coisa mais preciosa que já fizera até hoje.



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