Por Janete Kozak
Denuncie! Denuncie! Não deixe baixo, não fique calada. É o
que dizem a cada vez que conto suas ameaças.
Lembro-me das palavras da multidão gritando a Pilatos,
quando este perguntou o que fazer com o Cristo: Crucifica-o! Crucifica-o!
Mas não é bem assim. A Bíblia conta que crucificaram Jesus.
Na vida real, quem morre é a vítima. Por mais que denuncie, não darão ouvidos a
ela. Ou até darão, mas a lei é lenta e burocrática, por isso não fará muito que
a proteja.
Hoje entendo as mulheres “amparadas” pela lei Maria da
Penha. Pensei que fosse diferente. Pensei que fosse mais fácil. Que era chegar lá,
na tal Delegacia e pronto: todos os seus problemas fossem resolvidos.
Pensei que isso só acontecia com pessoas de menor instrução.
Que as independentes, fortes, robustas e elegantes mulheres da classe média
nunca passassem por isso.
Só que hoje sei que elas não denunciam. Resolvem de outra
maneira. A maneira delas.
Lembro-me quão humilhante foi sentar-me naquela sala. Senta-se
ali quem foi agredida pelo parceiro. Ou
pelo pai, pelo filho, pelo irmão. Eu era uma coitada. Tenho certeza que era.
Estava eu, a piriguete da vez, prestando queixa do nobre
cidadão, idôneo funcionário publico (por acaso era bem ali que ele trabalhava),
pai de família, morador do lugar há séculos, um homem fora de qualquer
suspeita, cujo caráter e passado ninguém ousa questionar. E sem uma prova sequer. Só tinha nas mãos
vergonha e medo.
Formaram um circulo ao meu redor. Vi caras piedosas, caras
desconfiadas, caras acusadoras, caras curiosas. Por mais que procurasse caras
decididas a resolver meu problema, eu não as encontrei. Vi minha intimidade
exposta ali, relatada numa folha de papel, que cada um que passada olhava com o
rabo do olho.
Você tem provas? Estas fazendo denuncias mentirosas! Esta
armando pra mim! É o que ouço no portão. Recolho-me ao meu cantinho e vou
vivendo mina vida. Mineirinha. Calada.
Eu, Janete, com meu nível superior, minha independência
financeira e social, meu orgulho engasgado, meu cabelo loiro e meus quilos a
mais.
Talvez um dia eu volte lá. Viva, com cartas na manga, ou
sabe Deus de que outra forma hei de chegar...
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSabe aquele texto que quando vc termina de ler fica sem palavras.... mas sem palavras extasiado, fiquei sem palavras como se tivesse levado o soco no estômago, do tipo que fax faltar as palavras, o ar e o chão. Te amo amiga e vou rezar pra que tudo isso passe logo!
ResponderExcluirFaz*
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