Por Josi Gonçalves
Dois adolescentes mortos. Amós e Fábio. Todo mundo quer ver, quer saber: quem são, onde moravam, quem matou e o porquê? As imagens impiedosas mostram o que restou dos frágeis corpinhos dos dois meninos sendo retirados em uma espécie de rede de coleta de uma cisterna de uma obra abandonada do governo.
O elefante branco, que deveria ser um presídio feminino, aprisionou dois jovens corpos que saíram de casa para jogar bola e voltaram em estado de decomposição. Nem um último beijo de despedida puderam ter.
Os meninos encontrados na tal obra poderiam no futuro, ser, quem sabe, o gestor daquele espaço, homens que mudariam a vida das detentas para melhor, especialistas em ressocialização de apenados...
Mas o futuro deles foi ceifado precocemente e as promessas foram parar no fundo de uma cisterna, agora fétida, odiada, macabra.
O povo se apinha pra ver as mães em choque, a cena dantesca e a dor em tela.
As redes sociais ampliam o desespero das famílias que perderam seus garotos sabe-se lá de que forma, sabe-se lá se um dia terão essa resposta das autoridades.
A culpa sobre as mortes é dividida. Uns acham que é dos pais, que criam seus filhos “soltos demais”, que perderam o comando sobre suas famílias. Outros atribuem o dolo ao governo que deixou de investir em segurança pública, que não concluiu obras como àquela onde as crianças foram encontradas mortas e que propicia atos criminosos como o que, supostamente, foi praticado contra os dois inocentes.
Não vou entrar nesse mérito de responsabilidade.
O que me choca, sinceramente, é a espetacularização da dor, da angústia, da morte. Depois cada qual vai pra casa, pro bar, pra esquina. E o Fábio e o Amós vão virar estatística.
É normal a vida seguir adiante. O que não é normal é a gente se desumanizar dia após dia. Lamentar a violência, se escandalizar com a dor alheia, mas se encher de repugnância ao dar de cara com um morador de rua, sujo e maltrapilho, dormindo na calçada. Fingir que o adolescente usuário de droga que acaba de lhe pedir um prato de comida é invisível.
A dor das mães desses meninos que perderam a luta para as drogas é a mesma das mães do Amós e Fábio. Noite após noite elas vão entrar no quarto em que eles dormiam chorar a dor dos filhos mortos. Os que morreram para o poder público, sociedade e família e os que se foram para sempre.
E logo não restará mais nada. Apenas dor e mais um corpo estendido no chão.

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