quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

EM QUE POSSO AJUDÁ-LO, FREGUÊS?




Por Josi Gonçalves*

A menina magrela se escondia atrás de um ramo de coentro e cebolinha no mercado velho. Devia ter uns seis, sete anos. De forma quase inaudível ela oferecia o produto aos fregueses: - Olha o coentro, olha a cebolinha...

- A bichinha, diziam alguns antes de comprar as ervas, também conhecidas como cheiro verde e muito utilizadas na culinária nordestina. Acho que compravam por dó.

Quando o estoque que cabia em seus bracinhos magros se acabava, ela ia ao encontro da mãe para pegar mais daquelas ervas. A mulher não sabia, mas para a filhinha era um imenso suplício vender. Não por orgulho. Mas por timidez e medo.

Alheia ao sentimento de vergonha que borbulhava no peito e no estômago da menina, a mãe a municiava com mais uns “maços” de verdura e a mandava retornar ao mercado. Obediente, ela ia e, mais uma vez, se protegia do mundo atrás daqueles ramos de coentro.

Após vender tudo, montava sua banquinha feita de duas caixas empilhadas, dessas de tomate, para ajudar a mãe a debulhar feijão verde numa grande bacia de alumínio. Já não tinha mais medo, nem vergonha. Estava segura ao lado daquela mulher a quem tanto admirava. Nenhum mal podia lhe acontecer.

Minutos depois era recompensada. Com o dinheiro arrecadado com as vendas no mercado a mulher lhe comprava um copo de leite e um cuscuz com coco. Também, pudera! Já passara das oito horas da manhã e as duas haviam saído de casa às quatro da matina sem comer nada porque não tinha em casa.
Às vezes o dinheiro era suficiente para comprar comida apenas pra garotinha.

A menina tinha quatro irmãos mais velhos e era dela a responsabilidade de voltar pra casa com a comida do almoço e jantar. Entre nove e dez horas da manhã uma ambulância da cidade passava pela feira e levava a menina pra casa. Gentileza de uma freira que gerenciava o hospital.

Com a barriguinha cheia, ela ia contente porque ia saciar a fome dos irmãos também. Numa sacola ela transportava feijão verde, carne moída e ossos pra sopa. Esse era o cardápio do almoço e janta. Todos os dias. Durante meses a fio. A resiliência os ensinou a nunca reclamar nem se queixar de nada. O pouco com Deus era muito, dizia o pai.

O tempo passou célere pela banca da feira e corredores sujos do mercado. Levou junto o sofrimento daquela família e trouxe bonança e fartura pra mesa da garotinha que cresceu, virou gente grande. 

Mas, vez por outra, diante de um novo desafio, ainda se sente aquela menina magrinha que tentava se esconder do mundo atrás de um ramo de coentro e cebolinha.

Aí respira fundo, lembra que hoje é ela que “debulha” os problemas e dirige a “ambulância” que socorre a muitos. Então, senta sobre a pilha imaginária de caixas de tomate e pergunta pra quem está do outro lado da bacia: - Em que posso ajudá-lo, freguês?

Josi Gonçalves é jornalista, flerta com o politicamente incorreto, anda de mãos dadas com a irreverência, pinta a cara com as cores da rebeldia e todos os dias faz planos de dominar o universo. 

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